Castanhas, nozes e peixe reduzem riscos de desenvolver Alzheimer, diz estudo
Laticínios gordurosos, carne vermelha e manteiga aumentam riscos.
Da BBC
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Mulher com raro tipo de Alzheimer não reconhece filha recém-nascida Velho inimigo pode ajudar a evitar mal de Alzheimer, afirma cientista Medicamento contra Alzheimer da Pfizer não passa em teste Cientistas utilizam ondas de celular para reverter doença de Alzheimer Perda de sono aumenta risco de Alzheimer Alzheimer é 'subestimado', dizem cientistas britânicos Pessoas produzem anticorpos naturais contra mal de Alzheimer, diz estudo Cafeína reverte perda de memória em ratos com Alzheimer, aponta estudo Viver sozinho na meia-idade agrava risco do Alzheimer, diz estudo
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Uma dieta rica em frutos oleaginosos (como castanhas, nozes e amêndoas), peixe e legumes diminui significativamente as chances de que uma pessoa desenvolva Alzheimer, segundo um estudo publicado na revista científica "Archives of Neurology".
O pesquisador Yian Gu e seus colegas do Medical Centre da Columbia University, em Nova York, Estados Unidos, analisaram as dietas de 2.148 adultos em idade de se aposentar vivendo em Nova York.
Durante os quatro anos de duração do estudo, 253 dos adultos do grupo desenvolveram Alzheimer.
Quando os pesquisadores estudaram em detalhe as dietas de todos os participantes no estudo, perceberam um padrão.
Adultos cujas dietas incluíam mais frutos oleaginosos, peixe, aves, frutas e verduras e menos laticínios gordurosos, carne vermelha e manteiga apresentaram muito menos chances de sofrer de demência.
Influência
Os pesquisadores acreditam que o segredo esteja nos diferentes níveis de nutrientes específicos que essa combinação de alimentos oferece.
Por exemplo, dietas ricas em ácidos graxos (como Ômega 3), vitamina E e folatos (como o ácido fólico), mas pobres em gorduras saturadas, parecem ser as melhores.
Há muito se suspeita de que nutrientes podem influenciar os riscos de demência.
Os folatos reduzem os níveis do aminoácido homocisteína (que foi associado, em estudos anteriores, ao Mal de Alzheimer) na circulação sanguínea.
Da mesma maneira, a vitamina E pode oferecer proteção devido ao seu forte efeito antioxidante.
Por outro lado, ácidos graxos saturados e monoinsaturados podem aumentar os riscos de demência ao encorajar a formação de coágulos no sangue, dizem os pesquisadores.
Comentando o estudo, Rebecca Wood, diretora-executiva do Alzheimer's Research Trust, disse: "Entender a conexão entre dieta e os riscos de demência pode ajudar a prevenir o desenvolvimento de doenças como o Mal de Alzheimer em algumas pessoas".
"Adaptar nosso estilo de vida à medida em que ficamos mais velhos - fazendo exercícios regularmente, prestando atenção à nossa dieta e mantendo uma vida social ativa - pode reduzir os riscos de demência".
"Mas infelizmente", acrescentou Wood, "não há dieta ou estilo de vida que elimine esses riscos por completo".
Na opinião da especialista, com 35 milhões de pessoas sofrendo de demência no mundo hoje, é importante que as pesquisas sejam direcionadas para a criação de novos tratamentos.
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Seg, 12/04/2010 12h20
Mulher com raro tipo de Alzheimer não reconhece filha recém-nascida
Rebecca Doig teve doença diagnosticada ao mesmo tempo em que soube que estava grávida.
12h20
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Discriminação contra homossexuais
Projeto de lei transforma em crimes a discriminação por orientação sexual
Quem praticar, induzir ou incitar a discriminação contra homossexuais, além da prisão, fica sujeito a pagar multa.
Giovana Teles
Brasília, DF
imprimir
“Vai discriminar homossexual por que? Não são seres humanos como nós?“.
“Eu sou a favor, porque eu acho que não deve ter nenhum tipo de discriminação na sociedade brasileira”.
É fato que o preconceito existe. Uma mulher que não quer ser identificada, conta que já foi discriminada. "Fui me despedir da minha namorada beijando a bochecha dela, quando o caixa da lanchonete expulsou a gente do local... E ele falou que era proibido beijar ali. Aí eu falei: ‘ta nas normas o preconceito?’ aí ele: ‘ta nas normas a intolerância com a homossexualidade aqui dento do clube. Então, por favor, se retirem do local’”.
Paulo Sócrates também tem histórias de preconceito, até de quem deveria protegê-lo... “Eu sofri uma agressão saindo do trabalho e não fui atendido pelo policial ao qual eu recorri porque o policial disse que era uma briga de namorados”.
Ele defende direitos iguais para todos. “A carga tributária que se impõe a um cidadão heterossexual é a mesma que se impõe a um homossexual, mas quando você precisa do dispositivo legal para te proteger, você é meio cidadão, porque você não tem os mesmos direitos que o heterossexual tem”.
Para coibir a discriminação a Câmara aprovou um projeto de lei que agora está no Senado e transforma em crimes a discriminação e o preconceito por orientação sexual.
Atitudes como impedir o acesso ou recusar atendimento aos homossexuais, por exemplo, em bares e restaurantes e proibir manifestações de afeto podem ser punidas com prisão de um a três anos.
Quem praticar, induzir ou incitar a discriminação contra homossexuais, além da prisão, fica sujeito a pagar multa.
Veja, no vídeo, a entrevista com o advogado da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Hugo Sarubbi, e Marcos Rogério de Souza, consultor jurídico da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros (ABGLT). Saiba por que a CNBB é contra o projeto e a defesa da ABGLT.
Quem praticar, induzir ou incitar a discriminação contra homossexuais, além da prisão, fica sujeito a pagar multa.
Giovana Teles
Brasília, DF
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“Vai discriminar homossexual por que? Não são seres humanos como nós?“.
“Eu sou a favor, porque eu acho que não deve ter nenhum tipo de discriminação na sociedade brasileira”.
É fato que o preconceito existe. Uma mulher que não quer ser identificada, conta que já foi discriminada. "Fui me despedir da minha namorada beijando a bochecha dela, quando o caixa da lanchonete expulsou a gente do local... E ele falou que era proibido beijar ali. Aí eu falei: ‘ta nas normas o preconceito?’ aí ele: ‘ta nas normas a intolerância com a homossexualidade aqui dento do clube. Então, por favor, se retirem do local’”.
Paulo Sócrates também tem histórias de preconceito, até de quem deveria protegê-lo... “Eu sofri uma agressão saindo do trabalho e não fui atendido pelo policial ao qual eu recorri porque o policial disse que era uma briga de namorados”.
Ele defende direitos iguais para todos. “A carga tributária que se impõe a um cidadão heterossexual é a mesma que se impõe a um homossexual, mas quando você precisa do dispositivo legal para te proteger, você é meio cidadão, porque você não tem os mesmos direitos que o heterossexual tem”.
Para coibir a discriminação a Câmara aprovou um projeto de lei que agora está no Senado e transforma em crimes a discriminação e o preconceito por orientação sexual.
Atitudes como impedir o acesso ou recusar atendimento aos homossexuais, por exemplo, em bares e restaurantes e proibir manifestações de afeto podem ser punidas com prisão de um a três anos.
Quem praticar, induzir ou incitar a discriminação contra homossexuais, além da prisão, fica sujeito a pagar multa.
Veja, no vídeo, a entrevista com o advogado da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Hugo Sarubbi, e Marcos Rogério de Souza, consultor jurídico da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros (ABGLT). Saiba por que a CNBB é contra o projeto e a defesa da ABGLT.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Saiba se você sofre de dependência eletrônica
Navegar na internet e jogar videogame. Quem nunca fez isso? O problema é quando a pessoa passa horas na frente do computador, perde o sono... Alguma vez você preferiu o relacionamento virtual ao real?
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Essa é a rotina de Marco Antônio Ourique Júnior... 14 anos e horas perdidas de sono para ficar conectado. “São duas e meia da manhã e eu vou desligar o computador agora”.
No dia seguinte... “Na escola não presto atenção na aula, durmo de cansaço porque não consigo abrir o olho para prestar atenção”.
Valéria Gallas, a mãe de Marco, é vigilante. Mas às vezes, sente que perde a batalha. “Não tô vendo, aí liga escondido, não faz barulho, aí vou beber uma água, falo: ‘Marco Antônio, vamos desligar isso’... É o tempo todo brigando”.
E quantos Marcos a gente encontra nas lan houses. Meninas e meninos de todas as idades vidrados nos jogos, páginas de relacionamentos... “Me sinto sem vontade de fazer nada, não dá vontade de fazer nada sem computador”.
André Luiz Carvalho, 20 anos, chega a virar a noite jogando. “Sete horas da noite vou até sete horas do dia seguinte. Aí durmo uma hora, duas para descansar um pouco e volto para fazer o que estava fazendo. Eu perdi totalmente o meu sono e prejudica também a minha sensibilidade com as pessoas. Porque dentro do jogo você vive um personagem, você não é a mesma pessoa. Você vive duas vidas uma vida aqui fora, outra lá dentro”.
A internet é uma ferramenta de descobertas ilimitadas, mas como tudo na vida é preciso ter controle. É possível identificar quando há um exagero: ficar tempo demais em frente ao computador e trocar o convívio social, o lazer por horas a fio de contatos e emoções virtuais não é saudável.
A pedido do Jornal Hoje, o psicanalista Jairo Werner montou um teste de dependência eletrônica com oito perguntas. Quanto mais respostas positivas, maior o perigo. Das sete crianças e jovens na lan house, apenas Isabelle respondeu sim duas vezes. “Ela precisa desenvolver o autocontrole e tomar cuidado para esse tempo não ir aumentando e ela chegar num nível perigoso de uso da internet”, alerta o psicanalista.
A todos os outros, que tiveram mais de quatro respostas positivas, Jairo alerta. “Sinal vermelho. Todos eles já têm sinais de que estão exagerando. Já ta prejudicando o sono, o relacionamento”.
Marco Antônio também fez o teste. Sinal vermelho piscando para ele! Um acordo de redução de horas é o tratamento que o doutor Jairo propõe.
Navegar na internet e jogar videogame. Quem nunca fez isso? O problema é quando a pessoa passa horas na frente do computador, perde o sono... Alguma vez você preferiu o relacionamento virtual ao real?
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Essa é a rotina de Marco Antônio Ourique Júnior... 14 anos e horas perdidas de sono para ficar conectado. “São duas e meia da manhã e eu vou desligar o computador agora”.
No dia seguinte... “Na escola não presto atenção na aula, durmo de cansaço porque não consigo abrir o olho para prestar atenção”.
Valéria Gallas, a mãe de Marco, é vigilante. Mas às vezes, sente que perde a batalha. “Não tô vendo, aí liga escondido, não faz barulho, aí vou beber uma água, falo: ‘Marco Antônio, vamos desligar isso’... É o tempo todo brigando”.
E quantos Marcos a gente encontra nas lan houses. Meninas e meninos de todas as idades vidrados nos jogos, páginas de relacionamentos... “Me sinto sem vontade de fazer nada, não dá vontade de fazer nada sem computador”.
André Luiz Carvalho, 20 anos, chega a virar a noite jogando. “Sete horas da noite vou até sete horas do dia seguinte. Aí durmo uma hora, duas para descansar um pouco e volto para fazer o que estava fazendo. Eu perdi totalmente o meu sono e prejudica também a minha sensibilidade com as pessoas. Porque dentro do jogo você vive um personagem, você não é a mesma pessoa. Você vive duas vidas uma vida aqui fora, outra lá dentro”.
A internet é uma ferramenta de descobertas ilimitadas, mas como tudo na vida é preciso ter controle. É possível identificar quando há um exagero: ficar tempo demais em frente ao computador e trocar o convívio social, o lazer por horas a fio de contatos e emoções virtuais não é saudável.
A pedido do Jornal Hoje, o psicanalista Jairo Werner montou um teste de dependência eletrônica com oito perguntas. Quanto mais respostas positivas, maior o perigo. Das sete crianças e jovens na lan house, apenas Isabelle respondeu sim duas vezes. “Ela precisa desenvolver o autocontrole e tomar cuidado para esse tempo não ir aumentando e ela chegar num nível perigoso de uso da internet”, alerta o psicanalista.
A todos os outros, que tiveram mais de quatro respostas positivas, Jairo alerta. “Sinal vermelho. Todos eles já têm sinais de que estão exagerando. Já ta prejudicando o sono, o relacionamento”.
Marco Antônio também fez o teste. Sinal vermelho piscando para ele! Um acordo de redução de horas é o tratamento que o doutor Jairo propõe.
Vai dar o que falar: projeto de castração de pedófilos
Você é contra ou a favor da castração química de pedófilos? O projeto está na Comissão de Direitos Humanos do Senado. Deixe sua opinião na nossa enquete.
Giovana Teles - Brasília
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“Acho que castrar não vai resolver o problema. Concorda?” – Daiane dos Anjos, gerente administrativa.
“Sou adepto de que a gente não pode ter nenhuma complacência com o pedófilo” – Euclides Silva, delegado da Polícia Federal.
“Totalmente a favor. Totalmente” – Andréia de Freitas, auxiliar administrativa.
“O certo seria punir essas pessoas, ser preso, né? Porque isso aí eu acho que não é muito certo, não” – João Batista Alencar, gesseiro.
A pedofilia é um crime devastador! Uma adolescente, de quatorze anos, foi seduzida pelo padrasto. Engravidou, abortou. Ele foi expulso de casa. Ela também... E hoje vive em um abrigo para menores. Todo dia a garota se arrepende de não ter contado o que estava acontecendo.
“Eu sempre vou continuar achando que eu tive culpa também, uma parcela de culpa, por ter deixado as coisas fluírem”.
A vida parou. O futuro é incerto. “Minha cabeça ta tão... Tudo tão confuso ainda que ainda nem parei pra pensar nisso...”.
A delegada de proteção à criança e ao adolescente, Gláucia Cristina Ésper conta que o trauma é enorme para a família toda. “Eles chegam esfacelados”.
E o mais grave é que não é fácil identificar um pedófilo. “Ele está à nossa porta batendo, ele está na tela da internet, ele está na televisão, ele está no shopping... Não existe barreira para abusos sexuais”.
O projeto que está na Comissão de Direitos Humanos do Senado prevê a chamada castração química para pedófilos condenados pela justiça. É um tratamento a base de hormônios. Comprimidos ou injeções que reduzem muito o desejo sexual.
Mas a aplicação só poderia ser feita se o criminoso concordasse. Em troca ele teria redução de um terço da pena.
O tratamento seria indicado apenas nos casos em que o médico dissesse que não existe outra opção.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) é contra o projeto. “A nossa posição é contrária, apesar de reconhecermos a gravidade desse ilícito penal que envolve a pedofilia, envolve pessoas inocentes, indefesas, que são vítimas desse crime. Apesar desse quadro, nós entendemos que o melhor tratamento jurídico e o tratamento punitivo não é o da castração química. Nós estamos num estágio do direito muito mais avançado e o que mais a sociedade reclama é a efetividade da justiça, a certeza da pena. Muito mais importante do que ficarmos editando novas leis, prevendo novos tipos penais, novas modalidades de punição, é importante que tenhamos a certeza de que aquele infrator será efetivamente punido”, defende Alberto de Paula Machado, vice-presidente da OAB.
“O principal argumento de defesa é, primeiro: ele foi apresentado em 2007. Se já tivesse sido aprovado, quantas crianças não teriam passado por essa humilhação? Quantos pedófilos já teriam sido recuperados? Entretanto, não foram. Eu tirei o projeto de uma lei francesa, que tem em vigor na Inglaterra e também na Itália que são democracias berço dos direitos humanos no mundo. Depois que apresentei meu projeto, ele foi aprovado no Canadá, aprovado na República Tcheca por plebiscito, inclusive aquele que é reincidente é castração cirúrgica. Depois na província de Barcelona e em oito estados norte-americanos. Esses países que respeitam os direitos humanos, todos tem esse tipo de punição para recuperar o pedófilo”, esclarece o senador Gerson Camata (PMDB/ES), autor do projeto.
Essa polêmica deve aumentar porque o relator do projeto quer estender a aplicação desse tratamento para todos os condenados por crimes sexuais.
Você é contra ou a favor da castração química de pedófilos? O projeto está na Comissão de Direitos Humanos do Senado. Deixe sua opinião na nossa enquete.
Giovana Teles - Brasília
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“Acho que castrar não vai resolver o problema. Concorda?” – Daiane dos Anjos, gerente administrativa.
“Sou adepto de que a gente não pode ter nenhuma complacência com o pedófilo” – Euclides Silva, delegado da Polícia Federal.
“Totalmente a favor. Totalmente” – Andréia de Freitas, auxiliar administrativa.
“O certo seria punir essas pessoas, ser preso, né? Porque isso aí eu acho que não é muito certo, não” – João Batista Alencar, gesseiro.
A pedofilia é um crime devastador! Uma adolescente, de quatorze anos, foi seduzida pelo padrasto. Engravidou, abortou. Ele foi expulso de casa. Ela também... E hoje vive em um abrigo para menores. Todo dia a garota se arrepende de não ter contado o que estava acontecendo.
“Eu sempre vou continuar achando que eu tive culpa também, uma parcela de culpa, por ter deixado as coisas fluírem”.
A vida parou. O futuro é incerto. “Minha cabeça ta tão... Tudo tão confuso ainda que ainda nem parei pra pensar nisso...”.
A delegada de proteção à criança e ao adolescente, Gláucia Cristina Ésper conta que o trauma é enorme para a família toda. “Eles chegam esfacelados”.
E o mais grave é que não é fácil identificar um pedófilo. “Ele está à nossa porta batendo, ele está na tela da internet, ele está na televisão, ele está no shopping... Não existe barreira para abusos sexuais”.
O projeto que está na Comissão de Direitos Humanos do Senado prevê a chamada castração química para pedófilos condenados pela justiça. É um tratamento a base de hormônios. Comprimidos ou injeções que reduzem muito o desejo sexual.
Mas a aplicação só poderia ser feita se o criminoso concordasse. Em troca ele teria redução de um terço da pena.
O tratamento seria indicado apenas nos casos em que o médico dissesse que não existe outra opção.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) é contra o projeto. “A nossa posição é contrária, apesar de reconhecermos a gravidade desse ilícito penal que envolve a pedofilia, envolve pessoas inocentes, indefesas, que são vítimas desse crime. Apesar desse quadro, nós entendemos que o melhor tratamento jurídico e o tratamento punitivo não é o da castração química. Nós estamos num estágio do direito muito mais avançado e o que mais a sociedade reclama é a efetividade da justiça, a certeza da pena. Muito mais importante do que ficarmos editando novas leis, prevendo novos tipos penais, novas modalidades de punição, é importante que tenhamos a certeza de que aquele infrator será efetivamente punido”, defende Alberto de Paula Machado, vice-presidente da OAB.
“O principal argumento de defesa é, primeiro: ele foi apresentado em 2007. Se já tivesse sido aprovado, quantas crianças não teriam passado por essa humilhação? Quantos pedófilos já teriam sido recuperados? Entretanto, não foram. Eu tirei o projeto de uma lei francesa, que tem em vigor na Inglaterra e também na Itália que são democracias berço dos direitos humanos no mundo. Depois que apresentei meu projeto, ele foi aprovado no Canadá, aprovado na República Tcheca por plebiscito, inclusive aquele que é reincidente é castração cirúrgica. Depois na província de Barcelona e em oito estados norte-americanos. Esses países que respeitam os direitos humanos, todos tem esse tipo de punição para recuperar o pedófilo”, esclarece o senador Gerson Camata (PMDB/ES), autor do projeto.
Essa polêmica deve aumentar porque o relator do projeto quer estender a aplicação desse tratamento para todos os condenados por crimes sexuais.
terça-feira, 23 de março de 2010
LYA LUFT:
Menina do interior, tive a natureza como presença enorme em torno da casa e por toda a pequena cidade: paisagem, abrigo, fascinação, surpresa, escola de permanência e também de transitoriedade. Mantive um laço estreito com esse universo, e quando posso durmo de janelas e cortinas abertas, para sentir a respiração do mundo. Porém, cedo também aprendi que a mãe natureza pode ser cruel. Granizo perfurando folhas e arrasando a horta, geada castigando flores, raios matando gente. De longe, ouvia falar em terremoto, quando o vasto mundo ainda era distante. Agora que o mundo ficou minúsculo, porque o Haiti arrasado, o Chile destruído e a Europa nevada estão ao alcance do meu dedo no computador ou no controle da televisão, a velha mãe se manifesta em estertores que podem ser apenas normais (o clima da Terra sempre mudou, às vezes radicalmente, antes de virmos povoar este planeta), mas também podem ser rosnados de protesto, "ei, o que estão fazendo comigo essas pequenas cracas que se instalaram sobre minha pele?".
Mas a natureza não mata apenas com enchentes, deslizamentos, terremotos e tsunamis. Mata pela mão dos humanos, o que pode parecer um fato em escala menor, mas é bem mais preocupante. Homens, mulheres e meninos-bomba quase diariamente se explodem levando consigo dezenas de vidas inocentes: pais de família, mães ou crianças, mulheres fazendo a feira, jovens indo para a escola. Bandidos incendeiam um ônibus com passageiros dentro: dois morrem logo, outros vários curtem em hospitais o grave sofrimento dos queimados. Não tinham nada a ver com a bandidagem, estavam apenas indo para o trabalho, ou vindo dele. Assaltantes explodem bancos em cidades do interior antes tranquilas. Criminosos sequestram casais ou famílias inteiras e os submetem aos maiores vexames e terror. Como está virando costume, a gente agradece por escapar com vida.
Duas mães deixam num barraco imundo cinco crianças, algumas com menos de 6 anos. Sem comida, sem força, sem presença, sem a menor higiene. O policial que as encontra leva duas menorzinhas para casa, onde sua mulher lhes dá banho e comida. As crianças, de tão fracas, mal conseguem se alimentar. O homem chora: tem três filhos pequenos, e há algum tempo perdeu uma filhinha. A maldade humana agride até esse homem que com ela deve ter frequente contato.
A natureza, da qual fazemos parte, mata com muito mais crueldade através de nós do que através do clima ou de movimentos da terra, e de maneira bem mais assustadora: pois nós pensamos enquanto prejudicamos o nosso semelhante. Temos a intenção de atormentar, torturar, matar, mesmo que em vários casos seja uma consciência em delírio – estamos tão drogados que achamos graça de tudo. Mas somos responsáveis por nos termos drogado.
De modo que, como me dizia um amigo, o ser humano não tem jeito, não. Ou: esse é o nosso jeito, a nossa parte na natureza. De um lado, os cuidadores, que vão de pais e mães até médicos e enfermeiras; do outro lado, os destruidores, que são os bandidos, mas também (que tristeza) eventualmente pais e parentes. E contra eles, tanto ou mais do que contra a natureza não humana, somos impotentes. O que faz a criança diante do abandono materno? Em relação ao pai, tio ou irmão estuprador? O que fazem passageiros de um ônibus, pacíficos e cansados, diante do terror imposto por bandidos? Nada. Migalhas humanas soterradas por maldade e frieza, como num terremoto ou tsunami somos soterrados pela lama, pelos destroços, pelas águas.
Resta filosofar um pouco: de que vale a vida, quanto vale a minha, e como a usamos, se é que pensamos nisso? Pensar pode ser meio chato, e ainda por cima traz alguma inquietação. A natureza poderosa, encantadora e cruel também somos nós: que a gente não fique do lado dos animais assassinos, como a orca, que depois de matar três pessoas continua, como foi anunciado, "fazendo parte do time", no parque americano.
Antes de usar um adesivo "salve as baleias", eu quero um adesivo "salve as pessoas, que são parte da natureza".
Mas a natureza não mata apenas com enchentes, deslizamentos, terremotos e tsunamis. Mata pela mão dos humanos, o que pode parecer um fato em escala menor, mas é bem mais preocupante. Homens, mulheres e meninos-bomba quase diariamente se explodem levando consigo dezenas de vidas inocentes: pais de família, mães ou crianças, mulheres fazendo a feira, jovens indo para a escola. Bandidos incendeiam um ônibus com passageiros dentro: dois morrem logo, outros vários curtem em hospitais o grave sofrimento dos queimados. Não tinham nada a ver com a bandidagem, estavam apenas indo para o trabalho, ou vindo dele. Assaltantes explodem bancos em cidades do interior antes tranquilas. Criminosos sequestram casais ou famílias inteiras e os submetem aos maiores vexames e terror. Como está virando costume, a gente agradece por escapar com vida.
Duas mães deixam num barraco imundo cinco crianças, algumas com menos de 6 anos. Sem comida, sem força, sem presença, sem a menor higiene. O policial que as encontra leva duas menorzinhas para casa, onde sua mulher lhes dá banho e comida. As crianças, de tão fracas, mal conseguem se alimentar. O homem chora: tem três filhos pequenos, e há algum tempo perdeu uma filhinha. A maldade humana agride até esse homem que com ela deve ter frequente contato.
A natureza, da qual fazemos parte, mata com muito mais crueldade através de nós do que através do clima ou de movimentos da terra, e de maneira bem mais assustadora: pois nós pensamos enquanto prejudicamos o nosso semelhante. Temos a intenção de atormentar, torturar, matar, mesmo que em vários casos seja uma consciência em delírio – estamos tão drogados que achamos graça de tudo. Mas somos responsáveis por nos termos drogado.
De modo que, como me dizia um amigo, o ser humano não tem jeito, não. Ou: esse é o nosso jeito, a nossa parte na natureza. De um lado, os cuidadores, que vão de pais e mães até médicos e enfermeiras; do outro lado, os destruidores, que são os bandidos, mas também (que tristeza) eventualmente pais e parentes. E contra eles, tanto ou mais do que contra a natureza não humana, somos impotentes. O que faz a criança diante do abandono materno? Em relação ao pai, tio ou irmão estuprador? O que fazem passageiros de um ônibus, pacíficos e cansados, diante do terror imposto por bandidos? Nada. Migalhas humanas soterradas por maldade e frieza, como num terremoto ou tsunami somos soterrados pela lama, pelos destroços, pelas águas.
Resta filosofar um pouco: de que vale a vida, quanto vale a minha, e como a usamos, se é que pensamos nisso? Pensar pode ser meio chato, e ainda por cima traz alguma inquietação. A natureza poderosa, encantadora e cruel também somos nós: que a gente não fique do lado dos animais assassinos, como a orca, que depois de matar três pessoas continua, como foi anunciado, "fazendo parte do time", no parque americano.
Antes de usar um adesivo "salve as baleias", eu quero um adesivo "salve as pessoas, que são parte da natureza".
quinta-feira, 18 de março de 2010
Castração em massa do pit bulls
Vai dar o que falar: castração em massa de pit bulls
O projeto, que prevê o controle de várias raças de cães de guarda, já está causando polêmica em Brasília. Você é contra ou a favor? Deixe seu comentário no nosso painel.
Giovana Teles - Brasília
O Jornal Hoje estreia um novo quadro “Vai dar o que falar”.
Vamos ouvir nossos telespectadores sobre temas polêmicos que estão sendo discutidos em Brasília. Vamos começar com o projeto que prevê a castração em massa de pit bulls e que prevê também o controle de várias raças de cães de guarda. Você é contra ou a favor?
“A gente não tem segurança nenhuma quando ve um cachorro desses, porque é perigoso mesmo. Acho que tem que ser castrado mesmo”, Silvia Gonçalves - massoterapeuta.
“Se cuidarem muito bem dele, se fazer com que ele seja dócil... Ele não é agressivo. Porque até eu mesmo se começarem a me agredir demais da conta eu começo até a ‘zunhar’", Jesus de Nazaré – aposentado.
“O sonho do meu marido é ter um pit bull e eu falei assim: pit bull aqui em casa não entra porque eu não suporto pit bull, que só em olhar você já sente um medo assim por ele”, Cíntia da Silva Santos - comerciária.
“Nem pit bull eu crio, mas eu acho que está errado isso”, Alex Carrel – enfermeiro.
É polêmico mesmo! Para muita gente os cães de guarda são amigos fiéis.
Mas só no estado de São Paulo, a cada hora onze pessoas são atacadas por cachorros de diferentes raças. Segundo o Ministério da Saúde, no ano passado, mais de 500 vítimas desses animais passaram por cirurgias em todo o país.
Em janeiro, em Salto de Pirapora, no interior paulista, a dona de casa Rosane Campos teve a perna amputada após ser atacada pelo pit bull que estava com ela há uma semana... “A hora em que ele viu sangue, ele queria mais sangue, o sangue enfureceu ele!”.
Há dois anos a vida de Luciana, de Juiz de Fora, também mudou. O pit bull da casa do patrão destruiu o rosto dela. “Até o refinamento tem muita coisa pela frente”.
- O projeto que está no Senado considera perigosas dezesseis raças, além do pit bull. Entre elas rotweiller, doberman, boxer, pastor alemão e fila.
- Determina, em casos de ataque, que o dono, criador ou quem tem a guarda do animal responda na justiça até por homicídio.
- As vítimas serão indenizada por danos materiais e morais.
- Para circular em locais públicos, os cães de guarda deverão usar coleira, corrente e focinheira. Caso contrário, o dono pagará multa e o animal irá para o canil público e poderá ser sacrificado.
- Fica proibida a reprodução dos pit bulls. Todos os machos deverão ser esterilizados. Se o proprietário descumprir a lei, poderá ficar preso, de três meses a um ano.
Todas as pessoas que o JH ouviu concordam com as punições para os donos de cães de grande porte em caso de ataques. O consenso acaba aí. Por isso, nossa produção conversou com o autor do projeto, senador Valter Pereira (PMDB-MS) e com o membro da Confederação Brasileira de criadores de cães de raça, Celso Pinto.
JH: Por que a Confederação é contra o projeto?
Celso Pinto: O que todos nós criadores de cães de raça pura temos contra o projeto é que ele torna desiguais de uma maneira igual. Ele faz com que todos os criadores que tratam seus cães de maneira corretamente, adestram, têm uma posse responsável pelos seus cães, sejam igualados a proprietários de cães que nem raça tem: os mestiços. Eles na realidade, são os grandes causadores de acidentes em todas as atividades.
JH: Senador, o senhor acha que os ataques justificam o extermínio de uma raça de cães?
Valter Pereira: O nosso foco é o cidadão comum. É o idoso que tem o direito de ir e vir, o direito de andar nas praças, direito de andar nas ruas. É a criança que é desprotegida e que, de repente, sofre ataques até fatais. Então não tem nenhum fundamento manter um cão que é uma verdadeira arma de grande calibre, como o pit bull, por exemplo.
O projeto, que prevê o controle de várias raças de cães de guarda, já está causando polêmica em Brasília. Você é contra ou a favor? Deixe seu comentário no nosso painel.
Giovana Teles - Brasília
O Jornal Hoje estreia um novo quadro “Vai dar o que falar”.
Vamos ouvir nossos telespectadores sobre temas polêmicos que estão sendo discutidos em Brasília. Vamos começar com o projeto que prevê a castração em massa de pit bulls e que prevê também o controle de várias raças de cães de guarda. Você é contra ou a favor?
“A gente não tem segurança nenhuma quando ve um cachorro desses, porque é perigoso mesmo. Acho que tem que ser castrado mesmo”, Silvia Gonçalves - massoterapeuta.
“Se cuidarem muito bem dele, se fazer com que ele seja dócil... Ele não é agressivo. Porque até eu mesmo se começarem a me agredir demais da conta eu começo até a ‘zunhar’", Jesus de Nazaré – aposentado.
“O sonho do meu marido é ter um pit bull e eu falei assim: pit bull aqui em casa não entra porque eu não suporto pit bull, que só em olhar você já sente um medo assim por ele”, Cíntia da Silva Santos - comerciária.
“Nem pit bull eu crio, mas eu acho que está errado isso”, Alex Carrel – enfermeiro.
É polêmico mesmo! Para muita gente os cães de guarda são amigos fiéis.
Mas só no estado de São Paulo, a cada hora onze pessoas são atacadas por cachorros de diferentes raças. Segundo o Ministério da Saúde, no ano passado, mais de 500 vítimas desses animais passaram por cirurgias em todo o país.
Em janeiro, em Salto de Pirapora, no interior paulista, a dona de casa Rosane Campos teve a perna amputada após ser atacada pelo pit bull que estava com ela há uma semana... “A hora em que ele viu sangue, ele queria mais sangue, o sangue enfureceu ele!”.
Há dois anos a vida de Luciana, de Juiz de Fora, também mudou. O pit bull da casa do patrão destruiu o rosto dela. “Até o refinamento tem muita coisa pela frente”.
- O projeto que está no Senado considera perigosas dezesseis raças, além do pit bull. Entre elas rotweiller, doberman, boxer, pastor alemão e fila.
- Determina, em casos de ataque, que o dono, criador ou quem tem a guarda do animal responda na justiça até por homicídio.
- As vítimas serão indenizada por danos materiais e morais.
- Para circular em locais públicos, os cães de guarda deverão usar coleira, corrente e focinheira. Caso contrário, o dono pagará multa e o animal irá para o canil público e poderá ser sacrificado.
- Fica proibida a reprodução dos pit bulls. Todos os machos deverão ser esterilizados. Se o proprietário descumprir a lei, poderá ficar preso, de três meses a um ano.
Todas as pessoas que o JH ouviu concordam com as punições para os donos de cães de grande porte em caso de ataques. O consenso acaba aí. Por isso, nossa produção conversou com o autor do projeto, senador Valter Pereira (PMDB-MS) e com o membro da Confederação Brasileira de criadores de cães de raça, Celso Pinto.
JH: Por que a Confederação é contra o projeto?
Celso Pinto: O que todos nós criadores de cães de raça pura temos contra o projeto é que ele torna desiguais de uma maneira igual. Ele faz com que todos os criadores que tratam seus cães de maneira corretamente, adestram, têm uma posse responsável pelos seus cães, sejam igualados a proprietários de cães que nem raça tem: os mestiços. Eles na realidade, são os grandes causadores de acidentes em todas as atividades.
JH: Senador, o senhor acha que os ataques justificam o extermínio de uma raça de cães?
Valter Pereira: O nosso foco é o cidadão comum. É o idoso que tem o direito de ir e vir, o direito de andar nas praças, direito de andar nas ruas. É a criança que é desprotegida e que, de repente, sofre ataques até fatais. Então não tem nenhum fundamento manter um cão que é uma verdadeira arma de grande calibre, como o pit bull, por exemplo.
segunda-feira, 8 de março de 2010
Dia Internacional da mulher:
O dia foi criado depois de diversas manifestações. Em 8 de março de 1857, operárias das indústrias têxtil e de vestuário fizeram um protesto contra as más condições de trabalho, em Nova York. Anos depois, a ideia seria reforçada por causa de um incêndio na mesma cidade, onde morreram 146 trabalhadores - 125 costureiras. Foi aí que, em 1920, a alemã Clara Zetkin propôs a criação da data, por essas e outras lutas.
Hoje, muitos lugares possuem uma programação especial para festejar. Em Salvador, por exemplo, diversas palestras dão ênfase à data, incluindo um seminário sobre Maria Bonita, esposa de Lampião (Biblioteca dos Barris). Enquanto isso, o Museu Eugênio Teixeira Leal explica melhor a Lei Maria da Penha, contra a violência à mulher.
Tradicional corrida de noivas, na China
No Rio de Janeiro, uma tripulação feminina comanda as barcas entre a Praça XV e Niterói, transportando cerca de 25 mil pessoas em 22 diferentes viagens. Na capital mineira, centenas de mulheres participam da passeata para lembrar as cinco vítimas do "Maníaco do Industrial", acusado de estupro e homicídio.
Celebração na Praça do Patriarca, em São Paulo
Em São Paulo, é o último dia para quem quiser conferir a exposição "Mulheres de Verdade", idealizada por Érica Monteiro e com 30 imagens de atrizes e modelos brasileiras com e sem maquiagem. A mostra é gratuita e acontece no Piso Térreo do Shopping Market Place.
Conquistas da mulher
Apesar de tudo que já conseguiu, como salários mais próximos aos dos homens e direito de voto, a mulher ainda tem um espaço a ser conquistado. Um dos exemplos é que, a cada ano, cerca de 5 mil mulheres são assassinadas e torturadas por razões que incluem a violação a normas da família ou da comunidade em relação à conduta sexual ou até pelo simples desejo de escolher seu marido ou querer o divórcio, conforme publicado no último dia 4 de março, pelo centro de notícias da ONU.
Além das diferenças sociais, há também problemas como a crise econômica que, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho - OIT, deve afetar muito mais as mulheres, sendo apenas uma questão de tempo. Isso porque ela logo se estenderá ao campo de serviços, onde predomina a classe feminina. De acordo com a notícia publicada pela ONU, "o estudo constata que há uma igualdade de gênero que foi alcançada nos últimos 15 anos, mas ainda existe uma grande diferença entre homens e mulheres a respeito de oportunidades de trabalho". Um exemplo disso é que mulheres com nível superior ainda ganham menos do que os homens, de acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego de 2009. A diferença chega a R$ 616,80 no setor comercial.
Hoje, muitos lugares possuem uma programação especial para festejar. Em Salvador, por exemplo, diversas palestras dão ênfase à data, incluindo um seminário sobre Maria Bonita, esposa de Lampião (Biblioteca dos Barris). Enquanto isso, o Museu Eugênio Teixeira Leal explica melhor a Lei Maria da Penha, contra a violência à mulher.
Tradicional corrida de noivas, na China
No Rio de Janeiro, uma tripulação feminina comanda as barcas entre a Praça XV e Niterói, transportando cerca de 25 mil pessoas em 22 diferentes viagens. Na capital mineira, centenas de mulheres participam da passeata para lembrar as cinco vítimas do "Maníaco do Industrial", acusado de estupro e homicídio.
Celebração na Praça do Patriarca, em São Paulo
Em São Paulo, é o último dia para quem quiser conferir a exposição "Mulheres de Verdade", idealizada por Érica Monteiro e com 30 imagens de atrizes e modelos brasileiras com e sem maquiagem. A mostra é gratuita e acontece no Piso Térreo do Shopping Market Place.
Conquistas da mulher
Apesar de tudo que já conseguiu, como salários mais próximos aos dos homens e direito de voto, a mulher ainda tem um espaço a ser conquistado. Um dos exemplos é que, a cada ano, cerca de 5 mil mulheres são assassinadas e torturadas por razões que incluem a violação a normas da família ou da comunidade em relação à conduta sexual ou até pelo simples desejo de escolher seu marido ou querer o divórcio, conforme publicado no último dia 4 de março, pelo centro de notícias da ONU.
Além das diferenças sociais, há também problemas como a crise econômica que, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho - OIT, deve afetar muito mais as mulheres, sendo apenas uma questão de tempo. Isso porque ela logo se estenderá ao campo de serviços, onde predomina a classe feminina. De acordo com a notícia publicada pela ONU, "o estudo constata que há uma igualdade de gênero que foi alcançada nos últimos 15 anos, mas ainda existe uma grande diferença entre homens e mulheres a respeito de oportunidades de trabalho". Um exemplo disso é que mulheres com nível superior ainda ganham menos do que os homens, de acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego de 2009. A diferença chega a R$ 616,80 no setor comercial.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Bruxas,vampiros e avatares
"A tecnologia abre territórios fascinantes, e ameaça nos controlar: se pensarmos um pouco, sentiremos medo"
Cibernéticos e virtuais, nadamos num rio de novidades e nos consideramos moderníssimos. Um turbilhão de recursos trazidos pela ciência, pela tecnologia, nos atrai ou confunde. Se somos mais velhos, nos faz crer que jamais pegaremos esse bonde - embora ele seja para todos os que se dispuserem a nele subir, não necessariamente para ser campeões ou heróis.
A tecnologia abre territórios fascinantes, e ameaça nos controlar: se pensarmos um pouco, sentiremos medo. O que mais vem por aí, quanto podemos lidar com essas novidades, sem saber direito quais são as positivas, quanto servem para promover progresso ou para nos exterminar ao toque do botão de algum demente no poder? Exageradamente entregues a esses jogos cada dia inovados, vamos nos perder da nossa natureza real, o instinto? Viramos homens e mulheres pós-modernos, sem saber o que isso significa; somos cibernéticos, somos twitteiros e blogueiros, mas não passamos disso. E, se não formos muito equilibrados, vamos nos transformar em hackers, e o mundo que exploda.
Sobre a sensação de onipotência que esse mundo novo nos confere, lembro a história deliciosa do aborígine que, contratado para guiar o cientista carregado de instrumentos refinados, lhe disse: "Você e sua gente não são muito espertos, porque precisam de todas essas ferramentas simplesmente para andar no mato e observar os animais".
Não vamos regredir: a civilização anda segundo seu próprio arbítrio. Mas, como quase todas as coisas, seus produtos criam ambiguidade pelo excesso de aberturas e pelo receio diante do novo, que precisa ser domesticado, para se tornar nosso servo útil. As possibilidades do mundo virtual são quase infinitas. Sua sedução é intensa. Tão enganador quanto fascinante, no que tange à comunicação. Imenso, variado, assustador, rumoroso, ameaçador, e frio, porque impessoal. Nesse mundo difuso somos quase onipotentes, sem maior responsabilidade, pois cada ação nem sempre corresponde a uma consequência - e ainda podemos nos esconder no anonimato. Criam-se sérias questões morais e éticas não resolvidas nesse território: através da mesma ferramenta que nos abre universos e nos comunica com o outro, caluniamos e somos caluniados, ameaçamos e somos ameaçados, nos despersonalizamos, nos entregamos a atividades estranhas, algumas perversas; espiamos, espreitamos, maldizemos amigos e desconhecidos, odiamos celebridades, cortamos a cabeça de quem se destaca porque se torna objeto de inveja e ressentimento, escutamos mensagens sombrias e cumprimos, talvez, ordens sinistras.
Relacionamentos pessoais começam e terminam, bem ou mal, nesse campo virtual - não muito diferente do mundo dito real, dos bares, festas e trabalho, faculdade e escola. Para as crianças, esse universo extenso e invasivo pode ser uma grande escola, um mestre inesgotável, um salão de jogos divertido em que elas imediatamente se sentem à vontade, sem os limites dos adultos. Mas pode ser a estrada dos pedófilos, a alcova dos doentes, ou a passagem sobre o limite do natural e lúdico para o obsessivo e perverso.
Como quase tudo neste mundo nosso, duplo é o gume: comunicar-se é positivo, mas sinais feitos na sombra, sem verdadeiro nome nem rosto, podem acabar em fantasmáticas perseguições e males. Singularmente, mas de maneira muito significativa, enquanto estamos velozes e espertos no computador, criando mundos virtuais, e jogando jogos cada vez mais complexos, buscamos o nevoeiro desse anonimato e, na época das maiores inovações, curtimos voar com bruxos em suas vassouras, namorar vampiros e inventar avatares que vão de engraçados a sinistros.
Estimulante, múltiplo, tão rico, resta saber o que vamos fazer nesse novo mundo - ou o que ele vai fazer de nós. Quando soubermos, estaremos afixados nele como borboletas presas com alfinete debaixo da tampa de vidro ou vaga-lumes em potes de geleia vazios, naquelas noites de verão quando a infância era apenas aquela, inocente, que ainda espia sobre nossos ombros.
Cibernéticos e virtuais, nadamos num rio de novidades e nos consideramos moderníssimos. Um turbilhão de recursos trazidos pela ciência, pela tecnologia, nos atrai ou confunde. Se somos mais velhos, nos faz crer que jamais pegaremos esse bonde - embora ele seja para todos os que se dispuserem a nele subir, não necessariamente para ser campeões ou heróis.
A tecnologia abre territórios fascinantes, e ameaça nos controlar: se pensarmos um pouco, sentiremos medo. O que mais vem por aí, quanto podemos lidar com essas novidades, sem saber direito quais são as positivas, quanto servem para promover progresso ou para nos exterminar ao toque do botão de algum demente no poder? Exageradamente entregues a esses jogos cada dia inovados, vamos nos perder da nossa natureza real, o instinto? Viramos homens e mulheres pós-modernos, sem saber o que isso significa; somos cibernéticos, somos twitteiros e blogueiros, mas não passamos disso. E, se não formos muito equilibrados, vamos nos transformar em hackers, e o mundo que exploda.
Sobre a sensação de onipotência que esse mundo novo nos confere, lembro a história deliciosa do aborígine que, contratado para guiar o cientista carregado de instrumentos refinados, lhe disse: "Você e sua gente não são muito espertos, porque precisam de todas essas ferramentas simplesmente para andar no mato e observar os animais".
Não vamos regredir: a civilização anda segundo seu próprio arbítrio. Mas, como quase todas as coisas, seus produtos criam ambiguidade pelo excesso de aberturas e pelo receio diante do novo, que precisa ser domesticado, para se tornar nosso servo útil. As possibilidades do mundo virtual são quase infinitas. Sua sedução é intensa. Tão enganador quanto fascinante, no que tange à comunicação. Imenso, variado, assustador, rumoroso, ameaçador, e frio, porque impessoal. Nesse mundo difuso somos quase onipotentes, sem maior responsabilidade, pois cada ação nem sempre corresponde a uma consequência - e ainda podemos nos esconder no anonimato. Criam-se sérias questões morais e éticas não resolvidas nesse território: através da mesma ferramenta que nos abre universos e nos comunica com o outro, caluniamos e somos caluniados, ameaçamos e somos ameaçados, nos despersonalizamos, nos entregamos a atividades estranhas, algumas perversas; espiamos, espreitamos, maldizemos amigos e desconhecidos, odiamos celebridades, cortamos a cabeça de quem se destaca porque se torna objeto de inveja e ressentimento, escutamos mensagens sombrias e cumprimos, talvez, ordens sinistras.
Relacionamentos pessoais começam e terminam, bem ou mal, nesse campo virtual - não muito diferente do mundo dito real, dos bares, festas e trabalho, faculdade e escola. Para as crianças, esse universo extenso e invasivo pode ser uma grande escola, um mestre inesgotável, um salão de jogos divertido em que elas imediatamente se sentem à vontade, sem os limites dos adultos. Mas pode ser a estrada dos pedófilos, a alcova dos doentes, ou a passagem sobre o limite do natural e lúdico para o obsessivo e perverso.
Como quase tudo neste mundo nosso, duplo é o gume: comunicar-se é positivo, mas sinais feitos na sombra, sem verdadeiro nome nem rosto, podem acabar em fantasmáticas perseguições e males. Singularmente, mas de maneira muito significativa, enquanto estamos velozes e espertos no computador, criando mundos virtuais, e jogando jogos cada vez mais complexos, buscamos o nevoeiro desse anonimato e, na época das maiores inovações, curtimos voar com bruxos em suas vassouras, namorar vampiros e inventar avatares que vão de engraçados a sinistros.
Estimulante, múltiplo, tão rico, resta saber o que vamos fazer nesse novo mundo - ou o que ele vai fazer de nós. Quando soubermos, estaremos afixados nele como borboletas presas com alfinete debaixo da tampa de vidro ou vaga-lumes em potes de geleia vazios, naquelas noites de verão quando a infância era apenas aquela, inocente, que ainda espia sobre nossos ombros.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Comportamento:
Vaidade exagerada na infância é prejudicial na vida adulta
Os responsáveis têm que conversar com as filhas. O salto alto, por exemplo, cabe aos pais controlar o uso precoce e resistir aos desejos das meninas.
Uma polêmica das boas: por que meninas de 5, 6 anos de idade, muitas vezes com o apoio dos pais, pintam as unhas, capricham na maquiagem e usam salto alto?
No colo da mãe, Julia é uma criança tímida. Na Marquês de Sapucaí, no Rio, ela mostra todo o seu talento. Com apenas 7 anos, é a rainha de bateria da Viradouro.
A minipassista gosta de brincar com a beleza, ainda mais no salão da mãe. “Na maquiagem, se eu deixar, ela carrega mais. A maquiagem tem que ficar tomando conta, se não é muita purpurina”, conta a mãe de Júlia, Monica Lira.
Em Hollywood, Suri, de 3 anos, filha de Tom Cruise e Katie Homes, vive aparecendo de batom e salto alto.
Em São Paulo, não falta charme na vida de Beatriz, de 7 anos. Ela conta que a maquiagem que mais gosta de passar é batom e sombra. “Eu hoje estou com um esmalte claro, ela não gostou. Ela disse: - Mãe está muito apagado”, revela a mãe de Beatriz, Jane Moura Mituiwa.
Luana, hoje com 4 anos, faz as unhas desde 1 ano e 8 meses. E já tem uma lista de prioridades: “Cabelo, dente e pele”, diz ela. Todos os sábados, a manicure atende mãe e filha em casa. “Ela tem sim uma preocupação, uma vaidade de mocinha, mas ela tem as brincadeiras e os amigos que fazem com que ela viver em um mundo normal”, diz a mãe de Luana, Gabriela Comazzetto.
O médico dermatologista Wellington Furlan explica os risco de uma criança usar esmalte nas unhas: “O principal risco são as alergias, são chamadas de dermatites de contato, que podem ocorrer no local da aplicação, e também em outras partes do corpo como na pálpebra que é muito comum. O ideal é a criança não fazer a unha”.
Mas se for fazer a unha assim mesmo, é melhor escolher produtos à base de água, menos irritantes para a pele.
Beatriz Lopes Drud, de 5 anos, já tem sutiã. Mas a mãe de Bia esconde o sutiã, para que Bia não use antes da adolescência.
“A mãe é o primeiro modelo de amor da menina. Então, é natural que ela imite, ponha o salto alto da mãe. O problema é quando a mãe estimula demais a criança ter atitudes inadequadas para a faixa etária dela”, explica a psicóloga Patrícia Spada.
“Eu gosto de salto, colar e anel”, fala uma menina.
“Sapato de salto alto prata”, revela outra garota em uma loja de sapatos.
Mas o uso do salto esconde um problema. O Fantástico convidou Bia, que usa salto, e Julia que nunca usou, para um teste em um laboratório de fisioterapia na Universidade
de São Paulo.
Bia, conta a doutora em biomecânica, Isabel Sacco, que gosta de usar salto alto, que anda normalmente com ele e que fica com dor na perna quando fica muito em pé com o salto. O primeiro exame é com os pés descalços.
“Quando a gente anda, pisa com o calcanhar no chão, a gente vai escorregando o pé até lá na frente no dedão. No exame dela, percebe-se que você não faz força com o dedão. Mas olha só o que você faz com o seu calcanhar. Coitadinho dele, ele está com uma força um pouco maior. Quanto mais vermelho, cor de rosa, mas forte você bate o pé no chão”, explica a especialista.
Com a sandália, o resultado muda: “Como seu pé está assim para frente, por causa do salto alto, então o calcanhar não está mais apoiado. Então quando seu pé vem para frente por causa do salto, você aumenta a força que você faz no chão com a parte da frente. E o calcanhar serve para receber impacto, porque a gente tem um fofinho no calcanhar. Na frente do pé, não pode ter vermelho, só atrás”, explica Isabel Sacco.
O teste mostrou que Julia, que não usa salto alto, não apresenta problemas no jeito de andar.
O Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro e Calçado testou três tipos de sapatos para descobrir qual o mais adequado para as meninas entre 5 e 7 anos de idade. O resultado indica que o que tem o menor solado ajuda nos movimentos do pé. O modelo com a plataforma começa a prejudicar e o com salto pode trazer riscos.
“Então, a criancinha fica toda deformada na sua postura. E com uso corriqueiro desse salto, essas adaptações posturais acabam ficando crônicas”, adverte a doutora em biomecânica.
Os problemas podem aparecer no quadril, joelho e tornozelo. Às vezes, acompanhados por dor na vida adulta, aí nos casos mais graves, sem a possibilidade de reversão. Cabe aos pais controlar o uso precoce do salto e resistir aos desejos das filhas.
“Tem que conversar. É o ponto mais importante. E ajudar a criança a pensar. Essa é a função materna que eu penso que não pode ser esquecida”, defende a psicóloga
Os responsáveis têm que conversar com as filhas. O salto alto, por exemplo, cabe aos pais controlar o uso precoce e resistir aos desejos das meninas.
Uma polêmica das boas: por que meninas de 5, 6 anos de idade, muitas vezes com o apoio dos pais, pintam as unhas, capricham na maquiagem e usam salto alto?
No colo da mãe, Julia é uma criança tímida. Na Marquês de Sapucaí, no Rio, ela mostra todo o seu talento. Com apenas 7 anos, é a rainha de bateria da Viradouro.
A minipassista gosta de brincar com a beleza, ainda mais no salão da mãe. “Na maquiagem, se eu deixar, ela carrega mais. A maquiagem tem que ficar tomando conta, se não é muita purpurina”, conta a mãe de Júlia, Monica Lira.
Em Hollywood, Suri, de 3 anos, filha de Tom Cruise e Katie Homes, vive aparecendo de batom e salto alto.
Em São Paulo, não falta charme na vida de Beatriz, de 7 anos. Ela conta que a maquiagem que mais gosta de passar é batom e sombra. “Eu hoje estou com um esmalte claro, ela não gostou. Ela disse: - Mãe está muito apagado”, revela a mãe de Beatriz, Jane Moura Mituiwa.
Luana, hoje com 4 anos, faz as unhas desde 1 ano e 8 meses. E já tem uma lista de prioridades: “Cabelo, dente e pele”, diz ela. Todos os sábados, a manicure atende mãe e filha em casa. “Ela tem sim uma preocupação, uma vaidade de mocinha, mas ela tem as brincadeiras e os amigos que fazem com que ela viver em um mundo normal”, diz a mãe de Luana, Gabriela Comazzetto.
O médico dermatologista Wellington Furlan explica os risco de uma criança usar esmalte nas unhas: “O principal risco são as alergias, são chamadas de dermatites de contato, que podem ocorrer no local da aplicação, e também em outras partes do corpo como na pálpebra que é muito comum. O ideal é a criança não fazer a unha”.
Mas se for fazer a unha assim mesmo, é melhor escolher produtos à base de água, menos irritantes para a pele.
Beatriz Lopes Drud, de 5 anos, já tem sutiã. Mas a mãe de Bia esconde o sutiã, para que Bia não use antes da adolescência.
“A mãe é o primeiro modelo de amor da menina. Então, é natural que ela imite, ponha o salto alto da mãe. O problema é quando a mãe estimula demais a criança ter atitudes inadequadas para a faixa etária dela”, explica a psicóloga Patrícia Spada.
“Eu gosto de salto, colar e anel”, fala uma menina.
“Sapato de salto alto prata”, revela outra garota em uma loja de sapatos.
Mas o uso do salto esconde um problema. O Fantástico convidou Bia, que usa salto, e Julia que nunca usou, para um teste em um laboratório de fisioterapia na Universidade
de São Paulo.
Bia, conta a doutora em biomecânica, Isabel Sacco, que gosta de usar salto alto, que anda normalmente com ele e que fica com dor na perna quando fica muito em pé com o salto. O primeiro exame é com os pés descalços.
“Quando a gente anda, pisa com o calcanhar no chão, a gente vai escorregando o pé até lá na frente no dedão. No exame dela, percebe-se que você não faz força com o dedão. Mas olha só o que você faz com o seu calcanhar. Coitadinho dele, ele está com uma força um pouco maior. Quanto mais vermelho, cor de rosa, mas forte você bate o pé no chão”, explica a especialista.
Com a sandália, o resultado muda: “Como seu pé está assim para frente, por causa do salto alto, então o calcanhar não está mais apoiado. Então quando seu pé vem para frente por causa do salto, você aumenta a força que você faz no chão com a parte da frente. E o calcanhar serve para receber impacto, porque a gente tem um fofinho no calcanhar. Na frente do pé, não pode ter vermelho, só atrás”, explica Isabel Sacco.
O teste mostrou que Julia, que não usa salto alto, não apresenta problemas no jeito de andar.
O Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro e Calçado testou três tipos de sapatos para descobrir qual o mais adequado para as meninas entre 5 e 7 anos de idade. O resultado indica que o que tem o menor solado ajuda nos movimentos do pé. O modelo com a plataforma começa a prejudicar e o com salto pode trazer riscos.
“Então, a criancinha fica toda deformada na sua postura. E com uso corriqueiro desse salto, essas adaptações posturais acabam ficando crônicas”, adverte a doutora em biomecânica.
Os problemas podem aparecer no quadril, joelho e tornozelo. Às vezes, acompanhados por dor na vida adulta, aí nos casos mais graves, sem a possibilidade de reversão. Cabe aos pais controlar o uso precoce do salto e resistir aos desejos das filhas.
“Tem que conversar. É o ponto mais importante. E ajudar a criança a pensar. Essa é a função materna que eu penso que não pode ser esquecida”, defende a psicóloga
O Tempo e a politica:
Muitos historiadores sustentam que a Revolução Francesa de 1789, apesar de todas as iniquidades do regime monárquico, não teria eclodido sem a sequência cruel de invernos rigorosos e longos que arruinou as plantações de trigo, levando os pobres à inanição epidêmica. Também se atribui ao drástico desequilíbrio climático de meados dos anos 1840 a eclosão de uma onda de sangrentas insurreições populares que varreu quase todo o continente europeu. Chuvas e geadas inclementes intercaladas abriram caminho para a proliferação de uma praga que dizimou as plantações de batata, então a única fonte disponível de calorias em larga escala. Da penúria resultaram uma mortandade e um êxodo sem iguais na história da humanidade. Só na Irlanda, 2 milhões de habitantes - um em cada quatro - morreram ou emigraram.
Uma reportagem desta edição de VEJA investiga as causas meteorológicas do dilúvio que se abate sobre o Sul e o Sudeste brasileiros. Com especial ferocidade, as águas castigaram São Paulo, a maior cidade do Hemisfério Sul, motor econômico que produz 12% do PIB do Brasil. Desde 23 de dezembro passado choveu todos os dias em São Paulo. As nuvens derramaram sobre seus moradores uma quantidade de água que não se registrava havia 63 anos. A reportagem reflete sobre o inevitável custo político dos efeitos catastróficos trazidos pelo dilúvio. A exploração eleitoral das enchentes em São Paulo é desde já uma das estratégias declaradas pelos partidários da candidata governista em sua disputa com José Serra, governador de São Paulo. Não há dúvida de que hoje os governos são mais eficientes e democráticos e os eleitores mais atendidos e menos manipuláveis do que as legiões de miseráveis franceses de 1789 e dos carbonários pauperizados da Europa de 1840. Mas é a mesma a revolta das pessoas diante do sofrimento provocado pela devastação das águas.
O que fazer? Ao poder público resta atender com presteza cada uma das vítimas e cuidar para que elas tenham condições materiais e emocionais de retomar quanto antes sua vida produtiva. Cabe também fazer planos e obras para tentar garantir que na próxima estação das chuvas a única surpresa seja todos estarem preparados para evitar o pior.
Uma reportagem desta edição de VEJA investiga as causas meteorológicas do dilúvio que se abate sobre o Sul e o Sudeste brasileiros. Com especial ferocidade, as águas castigaram São Paulo, a maior cidade do Hemisfério Sul, motor econômico que produz 12% do PIB do Brasil. Desde 23 de dezembro passado choveu todos os dias em São Paulo. As nuvens derramaram sobre seus moradores uma quantidade de água que não se registrava havia 63 anos. A reportagem reflete sobre o inevitável custo político dos efeitos catastróficos trazidos pelo dilúvio. A exploração eleitoral das enchentes em São Paulo é desde já uma das estratégias declaradas pelos partidários da candidata governista em sua disputa com José Serra, governador de São Paulo. Não há dúvida de que hoje os governos são mais eficientes e democráticos e os eleitores mais atendidos e menos manipuláveis do que as legiões de miseráveis franceses de 1789 e dos carbonários pauperizados da Europa de 1840. Mas é a mesma a revolta das pessoas diante do sofrimento provocado pela devastação das águas.
O que fazer? Ao poder público resta atender com presteza cada uma das vítimas e cuidar para que elas tenham condições materiais e emocionais de retomar quanto antes sua vida produtiva. Cabe também fazer planos e obras para tentar garantir que na próxima estação das chuvas a única surpresa seja todos estarem preparados para evitar o pior.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Educação de quarto mundo
"Por que nos contentarmos com o pior, o medíocre, se podemos
ter o melhor e não nos falta o recurso humano para isso?"
No meio da tragédia do Haiti, que comove até mesmo os calejados repórteres de guerra, levo um choque nacional. Não são horrores como os de lá, mas não deixa de ser um drama moral. O relatório "Educação para todos", da Unesco, pôs o Brasil na 88ª posição no ranking de desenvolvimento educacional. Estamos atrás dos países mais pobres da América Latina, como o Paraguai, o Equador e a Bolívia. Parece que em alfabetizar somos até bons, mas depois a coisa degringola: a repetência média na América Latina e no Caribe é de pouco mais de 4%. No Brasil, é de quase 19%.
No clima de ufanismo que anda reinando por aqui, talvez seja bom acalmar-se e parar para refletir. Pois, se nossa economia não ficou arruinada, a verdade é que nossas crianças brincam na lama do esgoto, nossas famílias são soterradas em casas cuja segurança ninguém controla, nossos jovens são assassinados nas esquinas, em favelas ou condomínios de luxo somos reféns da bandidagem geral, e os velhos morrem no chão dos corredores dos hospitais públicos. Nossos políticos continuam numa queda de braço para ver quem é o mais impune dos corruptos, a linguagem e a postura das campanhas eleitorais se delineiam nada elegantes, e agora está provado o que a gente já imaginava: somos péssimos em educação.
Pergunta básica: quanto de nosso orçamento nacional vai para educação e cultura? Quanto interesse temos num povo educado, isto é, consciente e informado - não só de seus deveres e direitos, mas dos deveres dos homens públicos e do que poderia facilmente ser muito melhor neste país, que não é só de sabiás e palmeiras, mas de esforço, luta, sofrimento e desilusão?
Precisamos muito de crianças que saibam ler e escrever no fim da 1ª série elementar; jovens que consigam raciocinar e tenham o hábito de ler pelo menos jornal no 2º grau; universitários que possam se expressar falando e escrevendo, em lugar de, às vezes com beneplácito dos professores, copiar trabalhos da internet. Qualidade e liberdade de expressão também são pilares da democracia. Só com empenho dos governos, com exigência e rigor razoáveis das escolas - o que significa respeito ao estudante, à família e ao professor - teremos profissionais de primeira em todas as áreas, de técnicos, pesquisadores, jornalistas e médicos a operários. Por que nos contentarmos com o pior, o medíocre, se podemos ter o melhor e não nos falta o recurso humano para isso? Quando empregarmos em educação uma boa parte dos nossos recursos, com professores valorizados, os alunos vendo que suas ações têm consequências, como a reprovação - palavra que assusta alguns moderníssimos pedagogos, palavra que em algumas escolas nem deve ser usada, quando o que prejudica não é o termo, mas a negligência. Tantos são os jeitos e os recursos favorecendo o aluno preguiçoso que alguns casos chegam a ser bizarros: reprovação, só com muito esforço. Trabalho ou relaxamento têm o mesmo valor e recompensa.
Sou de uma família de professores universitários. Exerci o duro ofício durante dez anos, nos quais me apaixonei por lidar com alunos, mas já questionava o nível de exigência que podia lhes fazer. Isso faz algumas décadas: quando éramos ingênuos, e não antecipávamos ter nosso país entre os piores em educação. Quando os alunos ainda não usavam celular e iPhone na sala de aula, não conversavam como se estivessem no bar nem copiavam seus trabalhos da internet - o que hoje começa a ser considerado normal. Em suma, quando escola e universidade eram lugares de compostura, trabalho e aprendizado. O relaxamento não é geral, mas preocupa quem deseja o melhor para esta terra.
Há gente que acha tudo ótimo como está: os que reclamam é que estão fora da moda ou da realidade. Preparar para as lidas da vida real seria incutir nos jovens uma resignação de usuários do SUS, ou deixar a meninada "aproveitar a vida": alguém pode me explicar o que seria isso?
"Por que nos contentarmos com o pior, o medíocre, se podemos
ter o melhor e não nos falta o recurso humano para isso?"
No meio da tragédia do Haiti, que comove até mesmo os calejados repórteres de guerra, levo um choque nacional. Não são horrores como os de lá, mas não deixa de ser um drama moral. O relatório "Educação para todos", da Unesco, pôs o Brasil na 88ª posição no ranking de desenvolvimento educacional. Estamos atrás dos países mais pobres da América Latina, como o Paraguai, o Equador e a Bolívia. Parece que em alfabetizar somos até bons, mas depois a coisa degringola: a repetência média na América Latina e no Caribe é de pouco mais de 4%. No Brasil, é de quase 19%.
No clima de ufanismo que anda reinando por aqui, talvez seja bom acalmar-se e parar para refletir. Pois, se nossa economia não ficou arruinada, a verdade é que nossas crianças brincam na lama do esgoto, nossas famílias são soterradas em casas cuja segurança ninguém controla, nossos jovens são assassinados nas esquinas, em favelas ou condomínios de luxo somos reféns da bandidagem geral, e os velhos morrem no chão dos corredores dos hospitais públicos. Nossos políticos continuam numa queda de braço para ver quem é o mais impune dos corruptos, a linguagem e a postura das campanhas eleitorais se delineiam nada elegantes, e agora está provado o que a gente já imaginava: somos péssimos em educação.
Pergunta básica: quanto de nosso orçamento nacional vai para educação e cultura? Quanto interesse temos num povo educado, isto é, consciente e informado - não só de seus deveres e direitos, mas dos deveres dos homens públicos e do que poderia facilmente ser muito melhor neste país, que não é só de sabiás e palmeiras, mas de esforço, luta, sofrimento e desilusão?
Precisamos muito de crianças que saibam ler e escrever no fim da 1ª série elementar; jovens que consigam raciocinar e tenham o hábito de ler pelo menos jornal no 2º grau; universitários que possam se expressar falando e escrevendo, em lugar de, às vezes com beneplácito dos professores, copiar trabalhos da internet. Qualidade e liberdade de expressão também são pilares da democracia. Só com empenho dos governos, com exigência e rigor razoáveis das escolas - o que significa respeito ao estudante, à família e ao professor - teremos profissionais de primeira em todas as áreas, de técnicos, pesquisadores, jornalistas e médicos a operários. Por que nos contentarmos com o pior, o medíocre, se podemos ter o melhor e não nos falta o recurso humano para isso? Quando empregarmos em educação uma boa parte dos nossos recursos, com professores valorizados, os alunos vendo que suas ações têm consequências, como a reprovação - palavra que assusta alguns moderníssimos pedagogos, palavra que em algumas escolas nem deve ser usada, quando o que prejudica não é o termo, mas a negligência. Tantos são os jeitos e os recursos favorecendo o aluno preguiçoso que alguns casos chegam a ser bizarros: reprovação, só com muito esforço. Trabalho ou relaxamento têm o mesmo valor e recompensa.
Sou de uma família de professores universitários. Exerci o duro ofício durante dez anos, nos quais me apaixonei por lidar com alunos, mas já questionava o nível de exigência que podia lhes fazer. Isso faz algumas décadas: quando éramos ingênuos, e não antecipávamos ter nosso país entre os piores em educação. Quando os alunos ainda não usavam celular e iPhone na sala de aula, não conversavam como se estivessem no bar nem copiavam seus trabalhos da internet - o que hoje começa a ser considerado normal. Em suma, quando escola e universidade eram lugares de compostura, trabalho e aprendizado. O relaxamento não é geral, mas preocupa quem deseja o melhor para esta terra.
Há gente que acha tudo ótimo como está: os que reclamam é que estão fora da moda ou da realidade. Preparar para as lidas da vida real seria incutir nos jovens uma resignação de usuários do SUS, ou deixar a meninada "aproveitar a vida": alguém pode me explicar o que seria isso?
Comportamento:
Jerome Kagan, um dos grandes psicólogos do século XX, está de volta à moda. Em cinquenta anos de pesquisas sobre o desenvolvimento infantil, Kagan dedicou-se ao estudo da ansiedade, e, quanto mais a doença aparece na sociedade moderna, mais atenção seu trabalho ganha. Aos 80 anos (parecem 65), ele joga tênis três vezes por semana e, mesmo aposentado desde 2000, segue batendo ponto no seu escritório na Universidade Harvard e mantém a língua afiada de sempre. Nesta entrevista a VEJA, durante a qual psicanaliticamente fumou cachimbo, ele critica pediatras e obstetras, diz que Freud disseminou o equívoco de que a ansiedade é ruim e - para alívio das mães e festa das feministas - afirma que a mãe não é mais influente do que o pai na criação dos filhos.
Estamos vivendo a "era da ansiedade"? A incidência hoje não é maior do que era ontem. No século XVI, a ansiedade vinha do risco de morrer antes dos 35 anos de doença infecciosa, ser assaltado na beira da estrada entre uma cidade e outra, ofender Deus e ir para o purgatório. Hoje, estamos ansiosos em relação a coisas diferentes, como status social, sucesso profissional, relação com amigos e cônjuges. O que determina a frequência e a intensidade da ansiedade são os genes, e os genes não mudaram do século XVI para cá. Mas o que determina o alvo da ansiedade é a cultura, e isso mudou.
A ansiedade é ruim? Desde que Freud disse que todas as neuroses vêm da ansiedade, passamos a ter um entendimento cultural de que a ansiedade é uma coisa tóxica. Não é. Todos nós somos ansiosos. Faz parte da condição humana, como ficar cansado, errar, sentir-se culpado, frustrado ou envergonhado. Não existe civilização em que ninguém fica ansioso. A ansiedade tem vantagens. As pessoas ansiosas são muito responsáveis e conscientes. Quando eu selecionava meus ajudantes de pesquisa, sempre que possível optava por jovens ansiosos, tímidos e introvertidos, porque eles trabalham com afinco e erram menos. Há pessoas ansiosas simplesmente brilhantes.
Albert Einstein era ansioso? Pela biografia dele, eu diria que não, mas T.S. Eliot era seguramente ansioso e ganhou o Nobel de Literatura em 1948. O matemático Paul Dirac era extremamente ansioso e também ganhou o Nobel de Física em 1933. Uma pessoa pode ser intensamente ansiosa, mas, se ela consegue trabalhar, relacionar-se no casamento, cumprir seu papel de pai ou mãe, não há problema. A ansiedade será um problema se atingir um estágio clínico, no qual vira doença, a superansiedade. Do contrário, só será problema para quem acha que é um problema. Conheço indivíduos altamente ansiosos que não interpretam sua condição como problema. Entendem que a vida é assim mesmo e estão satisfeitos.
De onde vem a superansiedade? Há dois argumentos. Os biólogos evolucionários dizem que a existência de hipervigilantes entre membros de nossa espécie foi decisiva na luta contra os predadores. Sob esse ponto de vista, portanto, a ansiedade foi uma vantagem adaptativa. O argumento contrário deriva da tese de Stephen Jay Gould (paleontólogo americano, 1941-2002) segundo a qual nem todas as mutações são úteis e positivas. Algumas são simplesmente subprodutos da evolução. O queixo é um exemplo. Ele não traz em si nenhuma vantagem adaptativa. O queixo existe como consequência arquitetônica do desenho da boca, esta sim uma solução evolutiva útil. A natureza simplesmente não saberia como construir uma boca como a nossa sem criar como subproduto o queixo. A tese de Gould pode ser aplicada à superansiedade. Ela seria um subproduto, uma sobra de algum outro arranjo genético positivo. Não sei qual dos dois argumentos é o mais correto, mas ambos fazem sentido.
Em meio século de estudos, o que lhe parece mais decisivo no desenvolvimento infantil? Duas coisas. Uma é que, nos primeiros dezoito ou vinte anos, vivemos verdadeiros estágios de maturação. Os dois primeiros anos são um estágio. De 2 a 5, outro estágio. De 5 a 7, outro. E, quando passamos de um estágio ao outro, parte do que ocorreu antes desaparece sem deixar vestígios. Não carregamos toda a bagagem conosco. As experiências da primeira infância simplesmente somem, são transformadas ou eliminadas. Antes, pensava-se que não perdíamos nada, que tudo ficava registrado. Não é verdade. A outra coisa é que a natureza humana é como uma cebola. Trocamos as camadas externas com facilidade. São as crenças, o comportamento. As camadas internas, mais próximas do centro, são difíceis de mudar. São os sentimentos, a ansiedade, a raiva, o orgulho. Carl Jung (psiquiatra suíço, 1875-1961) entendeu isso com seu conceito de "persona" e "anima". "Persona" é a camada externa, é o que nós vemos um no outro. "Anima" é o que está dentro da cebola, e nós não vemos.
A biologia é destino? Depende. Há doenças, pouquíssimas doenças, que quase certamente vão se desenvolver em quem tiver determinados genes. É o caso de Huntington (doença degenerativa do sistema nervoso central). Felizmente, menos de 1% da população tem os genes de Huntington. No outro extremo, há doenças, muitas doenças, que só se desenvolverão, mesmo em quem tiver os genes errados, caso numerosos fatores externos se combinem para deflagrar a moléstia. São muitas as pessoas com esses genes, mas é provável que nunca tenham as doenças. Portanto, a resposta é não: biologia não é destino.
Pais ansiosos terão filhos ansiosos? Se a ansiedade dos pais decorre de uma característica de sua natureza, a probabilidade de que seus filhos sejam ansiosos é um pouco mais alta. Isso porque estamos falando de hereditariedade. Mas, se a ansiedade dos pais tiver origem no ambiente, no meio em que vivem, a possibilidade de passar a ansiedade para os filhos será menor.
Qual a influência dos pais sobre o temperamento dos filhos? No caso do temperamento que tem origem genética, os pais podem ajudar a mudar o comportamento, ou seja, a forma como esse temperamento se manifesta. Eles podem ajudar seu filho a reduzir ou silenciar a intensidade com que o temperamento aparece, mas a vulnerabilidade estará sempre lá. Na minha pesquisa com bebês, há dois casos muito evidentes. (A pesquisa começou em 1986, com 500 bebês, dos quais 20% se revelaram inibidos e ansiosos, e são acompanhados até hoje por seguidores e Kagan.) Uma das garotinhas pesquisadas, a quem chamamos de Mary, vem de uma família que lhe dá muito apoio e incentivo. Hoje, aos 24 anos, Mary está na faculdade e vai muito bem. Outra pesquisada, Baby 19, veio de uma família de pais divorciados e está tendo muitos problemas. As duas, Mary e Baby 19, têm o mesmo temperamento, mas as famílias fizeram a diferença.
O nível educacional e a classe social dos pais têm muita influência sobre o futuro dos filhos? Tem mais influência do que a genética. O melhor indicador de doença mental, de qualquer doença mental, é a classe social, e não os genes. Por hipótese, suponhamos que há um grupo de 1 000 bebês lá fora. Você e eu vamos pesquisá-los para determinar quais bebês poderão estar sofrendo de depressão aos 30 anos de idade. Você só pode examinar os genes dos bebês. Eu só posso examinar a educação e o nível de renda dos pais dos bebês. Meu resultado será mais exato do que o seu. Os que ocupam o topo da pirâmide social, em termos de educação, trabalho e renda, têm menos doença mental, vivem sete anos a mais e seus filhos são mais saudáveis. Em resumo, são pessoas mais felizes.
O amor da mãe é condição necessária para a saúde mental da criança no futuro? É conversa fiada. As crianças tomam consciência de si mesmas por volta dos 2 anos de idade. Quando isso acontece, a criança, para crescer mentalmente saudável, precisa acreditar que pelo menos um dos pais a valoriza. Pode ser a mãe ou o pai, não necessariamente a mãe. Observe: eu usei o verbo valorizar, não o verbo amar. A criança precisa se sentir valorizada. Na cultura escandinava, os pais não beijam nem abraçam os filhos, nem dizem "eu te amo". Mas estão sempre reforçando nos filhos a ideia de que eles são valorizados.
Beijar e abraçar o filho não faz diferença? Depende da interpretação e do contexto cultural da criança. Uma criança que cresce no Brasil talvez não acredite no amor de seus pais caso eles não a abracem e beijem. Mas não é a mesma coisa na Escandinávia. Há anos, tive um aluno, filho de mexicanos, criado na Califórnia. Não conhecia a Nova Inglaterra até se matricular em Harvard. Quando completou seu primeiro ano aqui, perguntei o que lhe havia chamado mais atenção. Ele riu e disse: "É estranho que os pais dos meus colegas venham visitá-los e não deem um abraço nem um beijo nos filhos". É cultural. Ele, filho de mexicanos, de origem latina, não entendia a indiferença física. As famílias da Nova Inglaterra não beijam nem abraçam seus filhos, mas os filhos sabem que os pais os valorizam.
O pediatra Berry Brazelton diz que a presença e o amor dos pais são fundamentais para criar crianças saudáveis e seguras. Ele está errado? Brazelton não está errado, mas os pediatras exageram o papel da afeição no primeiro ano de vida. Claro que os pais têm importância. Agora, é preciso entender que a criança que tem laços com seus pais está mais inclinada a fazer o que os pais querem que ela faça do que a criança que não tem os mesmos laços. É um contrato. A criança recebe carinho e afeição e, em troca, dá o que lhe pedem. Mas suponhamos que um pai carinhoso e amoroso queira que sua filha, em pleno século XXI, cresça como uma menina do século XIX, sem pensamentos de natureza sexual, calada e conformada. Isso será bom para a filha quando tiver 20 anos? Não. Portanto, se os pais usam os laços afetivos a serviço de bons valores, ótimo para a criança e seu futuro. No caso de valores inadequados, seria preferível que os laços não existissem. É disso que Brazelton não fala.
Não seria porque partimos do princípio de que os pais fazem o melhor para seus filhos? Mas essa é uma premissa errada. Os pais às vezes promovem valores errados. Em O Caçador de Pipas, Baba, o pai, amava seu filho Amir, mas queria que fosse um bravo, um valente, e não um escritor. O resultado foi que, com todo o amor, Baba criou um filho ansioso e que se sentia rejeitado pelo pai. Então, o amor funciona quando os pais promovem valores que servem para a criança no futuro.
No início da vida da criança, o pai e a mãe são igualmente significativos? Se a cultura disser que são, então eles serão. Mas a nossa cultura não diz isso. Ela nos diz que a mãe tem de amar seu filho. Nas últimas linhas de Narciso e Goldmundo, de Hermann Hesse, Goldmundo está morrendo nos braços de Narciso e então diz: "Mas como poderás morrer, Narciso, se não tens mãe? Sem mãe, não se pode amar. Sem mãe, não se pode morrer". Essa é a visão ocidental. É, de novo, uma questão cultural. Na Europa renascentista, o pai era considerado mais vital do que a mãe. Michel de Montaigne (escritor e ensaísta francês do século XVI) escreveu que o pai era a força mais relevante, pois a mãe era exageradamente emocional. O ideal, dizia Montaigne, era afastar logo a criança da mãe "e usar uma cabra para amamentá-la".
Todo casal hoje valoriza e registra em vídeo o momento em que o obstetra entrega o bebê nos braços da mãe assim que nasce... Bobagem. Isso parece bruxaria.
Mas a mãe amamentar o filho pele com pele também é dispensável? Isso não. Além de a amamentação ser recomendável, o contato do bebê com a pele da mãe traz benefícios para a saúde de ambos. Falamos da pele da mãe apenas porque o pai não amamenta. Se amamentasse, podia ser a pele do pai.
Estamos vivendo a "era da ansiedade"? A incidência hoje não é maior do que era ontem. No século XVI, a ansiedade vinha do risco de morrer antes dos 35 anos de doença infecciosa, ser assaltado na beira da estrada entre uma cidade e outra, ofender Deus e ir para o purgatório. Hoje, estamos ansiosos em relação a coisas diferentes, como status social, sucesso profissional, relação com amigos e cônjuges. O que determina a frequência e a intensidade da ansiedade são os genes, e os genes não mudaram do século XVI para cá. Mas o que determina o alvo da ansiedade é a cultura, e isso mudou.
A ansiedade é ruim? Desde que Freud disse que todas as neuroses vêm da ansiedade, passamos a ter um entendimento cultural de que a ansiedade é uma coisa tóxica. Não é. Todos nós somos ansiosos. Faz parte da condição humana, como ficar cansado, errar, sentir-se culpado, frustrado ou envergonhado. Não existe civilização em que ninguém fica ansioso. A ansiedade tem vantagens. As pessoas ansiosas são muito responsáveis e conscientes. Quando eu selecionava meus ajudantes de pesquisa, sempre que possível optava por jovens ansiosos, tímidos e introvertidos, porque eles trabalham com afinco e erram menos. Há pessoas ansiosas simplesmente brilhantes.
Albert Einstein era ansioso? Pela biografia dele, eu diria que não, mas T.S. Eliot era seguramente ansioso e ganhou o Nobel de Literatura em 1948. O matemático Paul Dirac era extremamente ansioso e também ganhou o Nobel de Física em 1933. Uma pessoa pode ser intensamente ansiosa, mas, se ela consegue trabalhar, relacionar-se no casamento, cumprir seu papel de pai ou mãe, não há problema. A ansiedade será um problema se atingir um estágio clínico, no qual vira doença, a superansiedade. Do contrário, só será problema para quem acha que é um problema. Conheço indivíduos altamente ansiosos que não interpretam sua condição como problema. Entendem que a vida é assim mesmo e estão satisfeitos.
De onde vem a superansiedade? Há dois argumentos. Os biólogos evolucionários dizem que a existência de hipervigilantes entre membros de nossa espécie foi decisiva na luta contra os predadores. Sob esse ponto de vista, portanto, a ansiedade foi uma vantagem adaptativa. O argumento contrário deriva da tese de Stephen Jay Gould (paleontólogo americano, 1941-2002) segundo a qual nem todas as mutações são úteis e positivas. Algumas são simplesmente subprodutos da evolução. O queixo é um exemplo. Ele não traz em si nenhuma vantagem adaptativa. O queixo existe como consequência arquitetônica do desenho da boca, esta sim uma solução evolutiva útil. A natureza simplesmente não saberia como construir uma boca como a nossa sem criar como subproduto o queixo. A tese de Gould pode ser aplicada à superansiedade. Ela seria um subproduto, uma sobra de algum outro arranjo genético positivo. Não sei qual dos dois argumentos é o mais correto, mas ambos fazem sentido.
Em meio século de estudos, o que lhe parece mais decisivo no desenvolvimento infantil? Duas coisas. Uma é que, nos primeiros dezoito ou vinte anos, vivemos verdadeiros estágios de maturação. Os dois primeiros anos são um estágio. De 2 a 5, outro estágio. De 5 a 7, outro. E, quando passamos de um estágio ao outro, parte do que ocorreu antes desaparece sem deixar vestígios. Não carregamos toda a bagagem conosco. As experiências da primeira infância simplesmente somem, são transformadas ou eliminadas. Antes, pensava-se que não perdíamos nada, que tudo ficava registrado. Não é verdade. A outra coisa é que a natureza humana é como uma cebola. Trocamos as camadas externas com facilidade. São as crenças, o comportamento. As camadas internas, mais próximas do centro, são difíceis de mudar. São os sentimentos, a ansiedade, a raiva, o orgulho. Carl Jung (psiquiatra suíço, 1875-1961) entendeu isso com seu conceito de "persona" e "anima". "Persona" é a camada externa, é o que nós vemos um no outro. "Anima" é o que está dentro da cebola, e nós não vemos.
A biologia é destino? Depende. Há doenças, pouquíssimas doenças, que quase certamente vão se desenvolver em quem tiver determinados genes. É o caso de Huntington (doença degenerativa do sistema nervoso central). Felizmente, menos de 1% da população tem os genes de Huntington. No outro extremo, há doenças, muitas doenças, que só se desenvolverão, mesmo em quem tiver os genes errados, caso numerosos fatores externos se combinem para deflagrar a moléstia. São muitas as pessoas com esses genes, mas é provável que nunca tenham as doenças. Portanto, a resposta é não: biologia não é destino.
Pais ansiosos terão filhos ansiosos? Se a ansiedade dos pais decorre de uma característica de sua natureza, a probabilidade de que seus filhos sejam ansiosos é um pouco mais alta. Isso porque estamos falando de hereditariedade. Mas, se a ansiedade dos pais tiver origem no ambiente, no meio em que vivem, a possibilidade de passar a ansiedade para os filhos será menor.
Qual a influência dos pais sobre o temperamento dos filhos? No caso do temperamento que tem origem genética, os pais podem ajudar a mudar o comportamento, ou seja, a forma como esse temperamento se manifesta. Eles podem ajudar seu filho a reduzir ou silenciar a intensidade com que o temperamento aparece, mas a vulnerabilidade estará sempre lá. Na minha pesquisa com bebês, há dois casos muito evidentes. (A pesquisa começou em 1986, com 500 bebês, dos quais 20% se revelaram inibidos e ansiosos, e são acompanhados até hoje por seguidores e Kagan.) Uma das garotinhas pesquisadas, a quem chamamos de Mary, vem de uma família que lhe dá muito apoio e incentivo. Hoje, aos 24 anos, Mary está na faculdade e vai muito bem. Outra pesquisada, Baby 19, veio de uma família de pais divorciados e está tendo muitos problemas. As duas, Mary e Baby 19, têm o mesmo temperamento, mas as famílias fizeram a diferença.
O nível educacional e a classe social dos pais têm muita influência sobre o futuro dos filhos? Tem mais influência do que a genética. O melhor indicador de doença mental, de qualquer doença mental, é a classe social, e não os genes. Por hipótese, suponhamos que há um grupo de 1 000 bebês lá fora. Você e eu vamos pesquisá-los para determinar quais bebês poderão estar sofrendo de depressão aos 30 anos de idade. Você só pode examinar os genes dos bebês. Eu só posso examinar a educação e o nível de renda dos pais dos bebês. Meu resultado será mais exato do que o seu. Os que ocupam o topo da pirâmide social, em termos de educação, trabalho e renda, têm menos doença mental, vivem sete anos a mais e seus filhos são mais saudáveis. Em resumo, são pessoas mais felizes.
O amor da mãe é condição necessária para a saúde mental da criança no futuro? É conversa fiada. As crianças tomam consciência de si mesmas por volta dos 2 anos de idade. Quando isso acontece, a criança, para crescer mentalmente saudável, precisa acreditar que pelo menos um dos pais a valoriza. Pode ser a mãe ou o pai, não necessariamente a mãe. Observe: eu usei o verbo valorizar, não o verbo amar. A criança precisa se sentir valorizada. Na cultura escandinava, os pais não beijam nem abraçam os filhos, nem dizem "eu te amo". Mas estão sempre reforçando nos filhos a ideia de que eles são valorizados.
Beijar e abraçar o filho não faz diferença? Depende da interpretação e do contexto cultural da criança. Uma criança que cresce no Brasil talvez não acredite no amor de seus pais caso eles não a abracem e beijem. Mas não é a mesma coisa na Escandinávia. Há anos, tive um aluno, filho de mexicanos, criado na Califórnia. Não conhecia a Nova Inglaterra até se matricular em Harvard. Quando completou seu primeiro ano aqui, perguntei o que lhe havia chamado mais atenção. Ele riu e disse: "É estranho que os pais dos meus colegas venham visitá-los e não deem um abraço nem um beijo nos filhos". É cultural. Ele, filho de mexicanos, de origem latina, não entendia a indiferença física. As famílias da Nova Inglaterra não beijam nem abraçam seus filhos, mas os filhos sabem que os pais os valorizam.
O pediatra Berry Brazelton diz que a presença e o amor dos pais são fundamentais para criar crianças saudáveis e seguras. Ele está errado? Brazelton não está errado, mas os pediatras exageram o papel da afeição no primeiro ano de vida. Claro que os pais têm importância. Agora, é preciso entender que a criança que tem laços com seus pais está mais inclinada a fazer o que os pais querem que ela faça do que a criança que não tem os mesmos laços. É um contrato. A criança recebe carinho e afeição e, em troca, dá o que lhe pedem. Mas suponhamos que um pai carinhoso e amoroso queira que sua filha, em pleno século XXI, cresça como uma menina do século XIX, sem pensamentos de natureza sexual, calada e conformada. Isso será bom para a filha quando tiver 20 anos? Não. Portanto, se os pais usam os laços afetivos a serviço de bons valores, ótimo para a criança e seu futuro. No caso de valores inadequados, seria preferível que os laços não existissem. É disso que Brazelton não fala.
Não seria porque partimos do princípio de que os pais fazem o melhor para seus filhos? Mas essa é uma premissa errada. Os pais às vezes promovem valores errados. Em O Caçador de Pipas, Baba, o pai, amava seu filho Amir, mas queria que fosse um bravo, um valente, e não um escritor. O resultado foi que, com todo o amor, Baba criou um filho ansioso e que se sentia rejeitado pelo pai. Então, o amor funciona quando os pais promovem valores que servem para a criança no futuro.
No início da vida da criança, o pai e a mãe são igualmente significativos? Se a cultura disser que são, então eles serão. Mas a nossa cultura não diz isso. Ela nos diz que a mãe tem de amar seu filho. Nas últimas linhas de Narciso e Goldmundo, de Hermann Hesse, Goldmundo está morrendo nos braços de Narciso e então diz: "Mas como poderás morrer, Narciso, se não tens mãe? Sem mãe, não se pode amar. Sem mãe, não se pode morrer". Essa é a visão ocidental. É, de novo, uma questão cultural. Na Europa renascentista, o pai era considerado mais vital do que a mãe. Michel de Montaigne (escritor e ensaísta francês do século XVI) escreveu que o pai era a força mais relevante, pois a mãe era exageradamente emocional. O ideal, dizia Montaigne, era afastar logo a criança da mãe "e usar uma cabra para amamentá-la".
Todo casal hoje valoriza e registra em vídeo o momento em que o obstetra entrega o bebê nos braços da mãe assim que nasce... Bobagem. Isso parece bruxaria.
Mas a mãe amamentar o filho pele com pele também é dispensável? Isso não. Além de a amamentação ser recomendável, o contato do bebê com a pele da mãe traz benefícios para a saúde de ambos. Falamos da pele da mãe apenas porque o pai não amamenta. Se amamentasse, podia ser a pele do pai.
Educação e Sociedade:
Ensinem os filhos a falhar"
Estudioso das relações familiares, o psicanalista belga
Jean-Pierre Lebrun diz que aprender a lidar com o insucesso
é fundamental para livrar-se de apuros na vida adulta
Ronaldo Soares
Selmy Yassuda
"Uma família harmônica não necessariamente faz de um jovem uma pessoa capaz de suportar o sofrimento inerente à condição humana"
Nos últimos trinta anos, o modelo tradicional de família passou por alterações significativas, principalmente no mundo ocidental. A ideia dos pais como senhores do destino dos filhos vem desabando progressivamente, no ritmo das transformações sociais. As consequências disso não são necessariamente ruins, como explica o psicanalista belga Jean-Pierre Lebrun, uma das principais referências na Europa no estudo sobre mudanças nas relações entre pais e filhos: "O que vale é a capacidade dos pais de fazer os filhos crescer. Esse é o bom ambiente familiar, independentemente do desenho que a família tenha". Lebrun esteve no Rio de Janeiro, para participar do 3º Encontro Franco-Brasileiro de Psicanálise e Direito. A seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu a VEJA.
Por que os pais hoje têm tanta dificuldade de controlar seus filhos?
Isso é reflexo da perda de legitimidade. Até pouco tempo atrás, a sociedade era hierarquizada, de forma que havia sempre um único lugar de destaque. Ele podia ser ocupado por Deus, ou pelo papa, ou pelo pai, ou pelo chefe. Isso foi se desfazendo progressivamente, e o processo se acentuou nos últimos trinta anos. Hoje a organização social não está mais constituída como pirâmide, mas como rede. E na rede não existe mais esse lugar diferente, que era reconhecido espontaneamente como tal e que conferia autoridade aos pais. As dificuldades para impor limites se acentuaram, causando grande apreensão nas pessoas quanto ao futuro de seus filhos.
Existe uma fórmula para evitar que os filhos sigam por um caminho errado?
É preciso ensiná-los a falhar. Uma coisa certa na vida é que as crianças vão falhar, não há como ser diferente. Quando os pais, a família e a sociedade dizem o tempo todo que é preciso conseguir, conseguir, conseguir, massacram os filhos. É inescapável errar. Todo mundo, em algum momento, vai passar por isso. Aprender a lidar com o fracasso evita que ele se torne algo destrutivo. Às vezes é preciso lembrar coisas muito simples que as pessoas parecem ter esquecido completamente. Estamos como que dopados. Os pais sabem que as crianças não ficarão com eles a vida inteira, que não vão conseguir tudo o que sonharam, que vão estabelecer ligações sociais e afetivas que, por vezes, lhes farão mal, mas tentam agir como se não soubessem disso. Hoje os filhos se tornaram um indicador do sucesso dos pais. Isso é perigoso, porque cada um tem a sua vida. Não é justo que, além de carregarem o peso das próprias dificuldades, os filhos também tenham de suportar a angústia de falhar em relação à expectativa depositada neles.
"Não contribui em nada achar que, pelo fato de o filho usar drogas, tudo está perdido. Além de conviver com seu drama, ele terá de carregar sobre os ombros o peso da angústia dos pais"
Falando concretamente, como é possível perceber essa diferença no comportamento das famílias hoje?
A mudança é visível. Na Europa, por exemplo, quando um professor dá nota baixa a um aluno, é certo que os pais vão aparecer na escola no dia seguinte para reclamar com ele. Há vinte, trinta anos, era o aluno que tinha de dar satisfações aos pais diante do professor. É uma completa inversão. Posso citar outro exemplo. Desde sempre, quando se levam os filhos pela primeira vez à escola, eles choram. Hoje em dia, normalmente são os pais que choram. A cena é comum. É como se esses pais tivessem continuado crianças. Isso acontece porque eles não são capazes de se apresentar como a geração acima da dos filhos. É uma consequência desse novo arranjo social, em que os papéis estão organizados de forma mais horizontal.
Como o senhor avalia essa mudança? Esse novo arranjo é pior do que o anterior?
Hoje os pais precisam discutir tudo, negociar o que antes eram ordens definitivas. E isso não é necessariamente algo negativo, desde que fique claro que, depois de negociar, discutir, trocar ideias, quem decide são os pais.
Essas mudanças na estrutura social podem influenciar em aspectos negativos como, por exemplo, o uso abusivo de drogas?
Não há uma relação automática. Os mecanismos pelos quais os indivíduos se tornam dependentes químicos são diversos e complexos. A psicanálise ajuda a identificar alguns deles. Vou dar um exemplo. Manter uma criança em satisfação permanente, com sua chupeta na boca o tempo todo, fazendo por ela tudo o que ela pede, a impede de ser confrontada com a perda da satisfação completa. E isso vai ser determinante em sua formação.
Mas o que essa perda tem a ver com o fato de as pessoas enveredarem por um caminho autodestrutivo?
É uma anomalia no processo de humanização. Não nascemos humanos, nós nos tornamos. Isso ocorre quando aprendemos aquilo em que somos singulares entre todos os animais que habitam o planeta. Somos os únicos capazes de falar. Não se trata apenas de aprender ortografia ou usar as palavras corretamente. Quando dominamos a faculdade da linguagem, adquirimos uma série de características muito especiais, como, por exemplo, a consciência de que somos mortais. Aprendemos a construir as pontes que levam a um entendimento superior do mundo e de nossa condição. Isso é o que nos diferencia e nos torna completamente humanos. Um desequilíbrio nesse processo pode ter consequências. É aí que entra a explicação psicanalítica para o ingresso no universo das drogas. Aprender a falar, ou tornar-se humano, é algo que não ocorre espontaneamente. É uma reação a uma perda do estado permanente de satisfação completa com a qual somos confrontados na primeira infância. Ou seja, o processo de humanização começa pelo entendimento de que jamais haverá a satisfação completa. É esse o curso saudável das coisas. Se os pais boicotam esse processo, podem estar cometendo um erro.
Com que consequências?
Isso faz com que estejamos cada vez menos preparados para lidar com o sofrimento da nossa condição humana. Há séculos que as drogas têm algo de paraíso artificial, como diz Baudelaire. Ou seja, uma forma de se refugiar da dor humana, da insatisfação. As drogas sempre serviram para evitar o confronto com esse sofrimento. Quanto menos você está preparado a suportar as dificuldades, mais está inclinado a se evadir, a recorrer a substâncias, sejam as drogas ilícitas, sejam as medicamentosas, para limitar o sofrimento que vai se apresentar. Com o desenvolvimento da farmacologia, essas substâncias se tornaram muito acessíveis. Isso pode criar distorções. É muito mais simples tomar uma Ritalina para não ser hiperativo do que fazer todo o trabalho de aprender a suportar a condição humana. Quando criança, a pessoa já precisa ser confrontada com a condição humana da perda de satisfação. Dessa maneira, na idade adulta, sua relação com o fim de uma paixão amorosa, por exemplo, tem maiores chances de ocorrer de maneira mais aceitável e menos traumática.
"Hoje os pais precisam discutir, negociar o que antes eram ordens definitivas. Isso não é necessariamente negativo, desde que fique claro que, depois de discutir, trocar ideias, são eles que decidem"
Por que as drogas têm apelo especial para os jovens?
Eles são mais sensíveis a esse fenômeno porque têm uma tendência espontânea a, quando se tornam adultos, ser novamente confrontados com as dificuldades da existência. É, de certa forma, a repetição daquilo que haviam vivenciado na infância, quando foram, ou deveriam ter sido, apresentados à ideia de perda da satisfação completa, de que não ficariam com a chupeta na boca a vida inteira, por exemplo. Se, no ambiente em que esses jovens vivem, há uma abundância de produtos que funcionam como um meio de evitar essas dificuldades, eles mergulham de cabeça. Como também veem nisso certo caráter transgressivo, todas as condições estão dadas para que eles recorram às drogas.
Que conselhos o senhor daria a pais que têm filhos viciados?
É preciso não achar que, pelo fato de os filhos usarem drogas, tudo está perdido. Isso não contribui em nada. Caso contrário, o jovem drogado, além de conviver com o próprio drama, terá de carregar a angústia dos pais sobre os ombros. Esse é o momento em que os pais devem aceitar que algo não funcionou direito em vez de tratar o problema como se tudo estivesse perdido. Nem sempre está.
Há alguma terapia que funcione contra a dependência química?
Cada caso requer um trabalho. Não existe terapia milagrosa. Há tentativas interessantes, de pessoas que se ocupam de refazer com o sujeito o trabalho de suportar as frustrações, as impossibilidades, os limites. Esse trabalho pode ajudar as pessoas a se livrar da dependência. Não existe até hoje uma droga que chegue a resolver o problema da droga. Momentaneamente, a pessoa pode até ficar contente se conseguir se tornar um pouco menos ansiosa, mas é preciso ver que efeito isso tem a longo prazo.
Existem dependentes irrecuperáveis?
A psiquiatria não é uma ciência universal, ela não diz o que vale para todos, ou mesmo para uma série de pacientes. É preciso trabalhar sempre caso a caso. Mas eu não diria nunca que um viciado em drogas é irrecuperável. Existem outros elementos em jogo que precisam ser considerados. Não há dependência química que não seja fruto de uma interação malsucedida entre o contexto social em que o indivíduo está inserido e o seu trajeto singular desde a infância.
Pouco mais de um mês atrás, no Rio de Janeiro, um rapaz viciado em crack matou uma amiga que tentava ajudá-lo. O pai do rapaz atribuiu a tragédia à dificuldade de internar o filho. O senhor é favorável à internação de dependentes químicos?
Essa é uma questão complicada mesmo. Na Europa, de modo geral, optamos cada vez menos pela internação de dependentes químicos. Quando a internação é necessária, esperamos que ela se dê de forma voluntária. Nos casos em que isso não é possível, a internação dura em média quarenta dias e é acompanhada de medidas administrativas para evitar abusos que já aconteceram, de internações excessivamente longas. Nesse aspecto, minha posição é como a dos europeus de maneira geral. Ficamos um pouco divididos entre manter nosso princípio democrático de que, mesmo doente, cada um tem o direito de dar sua opinião e, por outro lado, ter de reconhecer que em determinadas situações isso não é possível.
Costuma-se atribuir o mau comportamento dos filhos à falta da estrutura familiar tradicional, como a que ocorre após uma separação. Qual a exata influência que isso pode ter?
Uma família organizada de forma aparentemente harmônica não necessariamente faz de um jovem uma pessoa capaz de conviver e suportar o sofrimento inerente à condição humana. Essa capacidade pode ser pequena em famílias aparentemente realizadas, com estrutura sólida. Assim como pode ser enorme em uma família conflituosa, dividida, conturbada. Por isso, não se deve levar em conta apenas o aspecto exterior da família. O que vale é a capacidade dos pais de fazer os filhos crescer. De incutir-lhes a verdadeira condição humana. Esse é o bom ambiente familiar, independentemente do desenho que a família tenha.
O melhor mesmo, então, é aceitar que a existência é sofrida?
O processo é mesmo muito mais complexo do que ocorre com outros animais. Um cão nasce cão e será assim para o resto da vida. Um tigre será sempre tigre. Um humano, no entanto, precisa se tornar plenamente humano. É uma enorme diferença. Esse processo leva uns vinte, 25 anos e está sujeito a percalços. Na Renascença já se falava disso: não somos humanos, nós nos tornamos humanos.
Estudioso das relações familiares, o psicanalista belga
Jean-Pierre Lebrun diz que aprender a lidar com o insucesso
é fundamental para livrar-se de apuros na vida adulta
Ronaldo Soares
Selmy Yassuda
"Uma família harmônica não necessariamente faz de um jovem uma pessoa capaz de suportar o sofrimento inerente à condição humana"
Nos últimos trinta anos, o modelo tradicional de família passou por alterações significativas, principalmente no mundo ocidental. A ideia dos pais como senhores do destino dos filhos vem desabando progressivamente, no ritmo das transformações sociais. As consequências disso não são necessariamente ruins, como explica o psicanalista belga Jean-Pierre Lebrun, uma das principais referências na Europa no estudo sobre mudanças nas relações entre pais e filhos: "O que vale é a capacidade dos pais de fazer os filhos crescer. Esse é o bom ambiente familiar, independentemente do desenho que a família tenha". Lebrun esteve no Rio de Janeiro, para participar do 3º Encontro Franco-Brasileiro de Psicanálise e Direito. A seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu a VEJA.
Por que os pais hoje têm tanta dificuldade de controlar seus filhos?
Isso é reflexo da perda de legitimidade. Até pouco tempo atrás, a sociedade era hierarquizada, de forma que havia sempre um único lugar de destaque. Ele podia ser ocupado por Deus, ou pelo papa, ou pelo pai, ou pelo chefe. Isso foi se desfazendo progressivamente, e o processo se acentuou nos últimos trinta anos. Hoje a organização social não está mais constituída como pirâmide, mas como rede. E na rede não existe mais esse lugar diferente, que era reconhecido espontaneamente como tal e que conferia autoridade aos pais. As dificuldades para impor limites se acentuaram, causando grande apreensão nas pessoas quanto ao futuro de seus filhos.
Existe uma fórmula para evitar que os filhos sigam por um caminho errado?
É preciso ensiná-los a falhar. Uma coisa certa na vida é que as crianças vão falhar, não há como ser diferente. Quando os pais, a família e a sociedade dizem o tempo todo que é preciso conseguir, conseguir, conseguir, massacram os filhos. É inescapável errar. Todo mundo, em algum momento, vai passar por isso. Aprender a lidar com o fracasso evita que ele se torne algo destrutivo. Às vezes é preciso lembrar coisas muito simples que as pessoas parecem ter esquecido completamente. Estamos como que dopados. Os pais sabem que as crianças não ficarão com eles a vida inteira, que não vão conseguir tudo o que sonharam, que vão estabelecer ligações sociais e afetivas que, por vezes, lhes farão mal, mas tentam agir como se não soubessem disso. Hoje os filhos se tornaram um indicador do sucesso dos pais. Isso é perigoso, porque cada um tem a sua vida. Não é justo que, além de carregarem o peso das próprias dificuldades, os filhos também tenham de suportar a angústia de falhar em relação à expectativa depositada neles.
"Não contribui em nada achar que, pelo fato de o filho usar drogas, tudo está perdido. Além de conviver com seu drama, ele terá de carregar sobre os ombros o peso da angústia dos pais"
Falando concretamente, como é possível perceber essa diferença no comportamento das famílias hoje?
A mudança é visível. Na Europa, por exemplo, quando um professor dá nota baixa a um aluno, é certo que os pais vão aparecer na escola no dia seguinte para reclamar com ele. Há vinte, trinta anos, era o aluno que tinha de dar satisfações aos pais diante do professor. É uma completa inversão. Posso citar outro exemplo. Desde sempre, quando se levam os filhos pela primeira vez à escola, eles choram. Hoje em dia, normalmente são os pais que choram. A cena é comum. É como se esses pais tivessem continuado crianças. Isso acontece porque eles não são capazes de se apresentar como a geração acima da dos filhos. É uma consequência desse novo arranjo social, em que os papéis estão organizados de forma mais horizontal.
Como o senhor avalia essa mudança? Esse novo arranjo é pior do que o anterior?
Hoje os pais precisam discutir tudo, negociar o que antes eram ordens definitivas. E isso não é necessariamente algo negativo, desde que fique claro que, depois de negociar, discutir, trocar ideias, quem decide são os pais.
Essas mudanças na estrutura social podem influenciar em aspectos negativos como, por exemplo, o uso abusivo de drogas?
Não há uma relação automática. Os mecanismos pelos quais os indivíduos se tornam dependentes químicos são diversos e complexos. A psicanálise ajuda a identificar alguns deles. Vou dar um exemplo. Manter uma criança em satisfação permanente, com sua chupeta na boca o tempo todo, fazendo por ela tudo o que ela pede, a impede de ser confrontada com a perda da satisfação completa. E isso vai ser determinante em sua formação.
Mas o que essa perda tem a ver com o fato de as pessoas enveredarem por um caminho autodestrutivo?
É uma anomalia no processo de humanização. Não nascemos humanos, nós nos tornamos. Isso ocorre quando aprendemos aquilo em que somos singulares entre todos os animais que habitam o planeta. Somos os únicos capazes de falar. Não se trata apenas de aprender ortografia ou usar as palavras corretamente. Quando dominamos a faculdade da linguagem, adquirimos uma série de características muito especiais, como, por exemplo, a consciência de que somos mortais. Aprendemos a construir as pontes que levam a um entendimento superior do mundo e de nossa condição. Isso é o que nos diferencia e nos torna completamente humanos. Um desequilíbrio nesse processo pode ter consequências. É aí que entra a explicação psicanalítica para o ingresso no universo das drogas. Aprender a falar, ou tornar-se humano, é algo que não ocorre espontaneamente. É uma reação a uma perda do estado permanente de satisfação completa com a qual somos confrontados na primeira infância. Ou seja, o processo de humanização começa pelo entendimento de que jamais haverá a satisfação completa. É esse o curso saudável das coisas. Se os pais boicotam esse processo, podem estar cometendo um erro.
Com que consequências?
Isso faz com que estejamos cada vez menos preparados para lidar com o sofrimento da nossa condição humana. Há séculos que as drogas têm algo de paraíso artificial, como diz Baudelaire. Ou seja, uma forma de se refugiar da dor humana, da insatisfação. As drogas sempre serviram para evitar o confronto com esse sofrimento. Quanto menos você está preparado a suportar as dificuldades, mais está inclinado a se evadir, a recorrer a substâncias, sejam as drogas ilícitas, sejam as medicamentosas, para limitar o sofrimento que vai se apresentar. Com o desenvolvimento da farmacologia, essas substâncias se tornaram muito acessíveis. Isso pode criar distorções. É muito mais simples tomar uma Ritalina para não ser hiperativo do que fazer todo o trabalho de aprender a suportar a condição humana. Quando criança, a pessoa já precisa ser confrontada com a condição humana da perda de satisfação. Dessa maneira, na idade adulta, sua relação com o fim de uma paixão amorosa, por exemplo, tem maiores chances de ocorrer de maneira mais aceitável e menos traumática.
"Hoje os pais precisam discutir, negociar o que antes eram ordens definitivas. Isso não é necessariamente negativo, desde que fique claro que, depois de discutir, trocar ideias, são eles que decidem"
Por que as drogas têm apelo especial para os jovens?
Eles são mais sensíveis a esse fenômeno porque têm uma tendência espontânea a, quando se tornam adultos, ser novamente confrontados com as dificuldades da existência. É, de certa forma, a repetição daquilo que haviam vivenciado na infância, quando foram, ou deveriam ter sido, apresentados à ideia de perda da satisfação completa, de que não ficariam com a chupeta na boca a vida inteira, por exemplo. Se, no ambiente em que esses jovens vivem, há uma abundância de produtos que funcionam como um meio de evitar essas dificuldades, eles mergulham de cabeça. Como também veem nisso certo caráter transgressivo, todas as condições estão dadas para que eles recorram às drogas.
Que conselhos o senhor daria a pais que têm filhos viciados?
É preciso não achar que, pelo fato de os filhos usarem drogas, tudo está perdido. Isso não contribui em nada. Caso contrário, o jovem drogado, além de conviver com o próprio drama, terá de carregar a angústia dos pais sobre os ombros. Esse é o momento em que os pais devem aceitar que algo não funcionou direito em vez de tratar o problema como se tudo estivesse perdido. Nem sempre está.
Há alguma terapia que funcione contra a dependência química?
Cada caso requer um trabalho. Não existe terapia milagrosa. Há tentativas interessantes, de pessoas que se ocupam de refazer com o sujeito o trabalho de suportar as frustrações, as impossibilidades, os limites. Esse trabalho pode ajudar as pessoas a se livrar da dependência. Não existe até hoje uma droga que chegue a resolver o problema da droga. Momentaneamente, a pessoa pode até ficar contente se conseguir se tornar um pouco menos ansiosa, mas é preciso ver que efeito isso tem a longo prazo.
Existem dependentes irrecuperáveis?
A psiquiatria não é uma ciência universal, ela não diz o que vale para todos, ou mesmo para uma série de pacientes. É preciso trabalhar sempre caso a caso. Mas eu não diria nunca que um viciado em drogas é irrecuperável. Existem outros elementos em jogo que precisam ser considerados. Não há dependência química que não seja fruto de uma interação malsucedida entre o contexto social em que o indivíduo está inserido e o seu trajeto singular desde a infância.
Pouco mais de um mês atrás, no Rio de Janeiro, um rapaz viciado em crack matou uma amiga que tentava ajudá-lo. O pai do rapaz atribuiu a tragédia à dificuldade de internar o filho. O senhor é favorável à internação de dependentes químicos?
Essa é uma questão complicada mesmo. Na Europa, de modo geral, optamos cada vez menos pela internação de dependentes químicos. Quando a internação é necessária, esperamos que ela se dê de forma voluntária. Nos casos em que isso não é possível, a internação dura em média quarenta dias e é acompanhada de medidas administrativas para evitar abusos que já aconteceram, de internações excessivamente longas. Nesse aspecto, minha posição é como a dos europeus de maneira geral. Ficamos um pouco divididos entre manter nosso princípio democrático de que, mesmo doente, cada um tem o direito de dar sua opinião e, por outro lado, ter de reconhecer que em determinadas situações isso não é possível.
Costuma-se atribuir o mau comportamento dos filhos à falta da estrutura familiar tradicional, como a que ocorre após uma separação. Qual a exata influência que isso pode ter?
Uma família organizada de forma aparentemente harmônica não necessariamente faz de um jovem uma pessoa capaz de conviver e suportar o sofrimento inerente à condição humana. Essa capacidade pode ser pequena em famílias aparentemente realizadas, com estrutura sólida. Assim como pode ser enorme em uma família conflituosa, dividida, conturbada. Por isso, não se deve levar em conta apenas o aspecto exterior da família. O que vale é a capacidade dos pais de fazer os filhos crescer. De incutir-lhes a verdadeira condição humana. Esse é o bom ambiente familiar, independentemente do desenho que a família tenha.
O melhor mesmo, então, é aceitar que a existência é sofrida?
O processo é mesmo muito mais complexo do que ocorre com outros animais. Um cão nasce cão e será assim para o resto da vida. Um tigre será sempre tigre. Um humano, no entanto, precisa se tornar plenamente humano. É uma enorme diferença. Esse processo leva uns vinte, 25 anos e está sujeito a percalços. Na Renascença já se falava disso: não somos humanos, nós nos tornamos humanos.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
O Melhor e pior do homem
Os relatos enviados à redação de VEJA por Diego Escosteguy, nosso repórter no Haiti, dão conta de uma população vivendo quase em “estado natural”, condição que teria prevalecido na humanidade antes do estabelecimento das formas mais rudimentares de organização social. Gangues armadas saqueiam, roubam, estupram e matam. Grupos de haitianos desabrigados pelo terremoto se entrelaçam nas calçadas formando enormes tapetes humanos, de modo a passar a noite com um mínimo de segurança. É um quadro aterrador mesmo para um país que, antes de ser arrasado pelo terremoto, há duas semanas, já era um dos mais abalados pelo banditismo e pela miséria. O inglês Thomas Hobbes (1588-1679) teria agora em Porto Príncipe a chance de ver a realidade apenas teorizada por ele de um mundo sem lei em que a vida humana é “solitária, miserável, sórdida, brutal e curta”. A catástrofe natural fez emergir no Haiti o que há de pior na espécie humana.
Mas o terremoto no Haiti fez brotar também o que a espécie humana tem de melhor, a solidariedade. Horas depois do dimensionamento da magnitude da tragédia, partiram ofertas de ajuda de todas as partes do planeta, da vizinha República Dominicana à distante Turquia, da pobre Bolívia a potências econômicas como os Estados Unidos e a Alemanha. Logo se somariam aos 9000 homens da força permanente da ONU no Haiti, comandada pelo Exército brasileiro, milhares de bombeiros e dezenas de equipes médicas de quase uma dezena de nacionalidades. As doações em dinheiro, alimentos e remédios superaram em volume e rapidez aquelas feitas em outros desastres naturais de larga escala. A Cruz Vermelha recebeu em uma semana o dobro das doações recolhidas durante todo o ano de 2009.
Seria extraordinário se a onda sem precedentes de solidariedade promovida pelo desastre haitiano fosse sucedida de um esforço internacional de igual intensidade com o objetivo de criar as bases de uma nação soberana e estável naquele tão sofrido espaço geográfico. Se para outros países vitimados por catástrofes naturais o objetivo imediato é voltar à normalidade, no Haiti o desafio é, pela primeira vez em sua história, saber o que é desfrutar uma vida normal.
Mas o terremoto no Haiti fez brotar também o que a espécie humana tem de melhor, a solidariedade. Horas depois do dimensionamento da magnitude da tragédia, partiram ofertas de ajuda de todas as partes do planeta, da vizinha República Dominicana à distante Turquia, da pobre Bolívia a potências econômicas como os Estados Unidos e a Alemanha. Logo se somariam aos 9000 homens da força permanente da ONU no Haiti, comandada pelo Exército brasileiro, milhares de bombeiros e dezenas de equipes médicas de quase uma dezena de nacionalidades. As doações em dinheiro, alimentos e remédios superaram em volume e rapidez aquelas feitas em outros desastres naturais de larga escala. A Cruz Vermelha recebeu em uma semana o dobro das doações recolhidas durante todo o ano de 2009.
Seria extraordinário se a onda sem precedentes de solidariedade promovida pelo desastre haitiano fosse sucedida de um esforço internacional de igual intensidade com o objetivo de criar as bases de uma nação soberana e estável naquele tão sofrido espaço geográfico. Se para outros países vitimados por catástrofes naturais o objetivo imediato é voltar à normalidade, no Haiti o desafio é, pela primeira vez em sua história, saber o que é desfrutar uma vida normal.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
O PT mudou o Brasil? Ou foi o contrário?
"Lula e o PT conseguiram, mediante a desconstrução sistemática das realizações de outros governos, convencer a maioria de que o Brasil teria começado em 2003. Nunca antes"
De Maílson da Nóbrega:
Nunca antes na história deste país um partido se vangloriou tanto de feitos que não realizou. É o caso do PT. No seu último programa no rádio e na TV, o partido reivindicou o papel de marco zero. Até a estabilização da economia teria sido obra sua. Os petistas se jactam de ter mudado o país. Para um de seus senadores, 2009 foi "a segunda descoberta do Brasil".
No mundo, três transformações radicais sobressaem: (1) a Revolução Gloriosa (1688), que extinguiu o absolutismo inglês e levaria a Inglaterra à Revolução Industrial; (2) a Revolução Americana (1776), da qual surgiria a maior potência no século XIX; e (3) a Revolução Francesa (1789), a profunda mudança que substituiria os privilégios da nobreza, do clero e dos senhores feudais pelos direitos inalienáveis dos cidadãos.
Nada desse porte aconteceu no Brasil, nem agora nem antes. A independência foi declarada por dom Pedro, representante da metrópole. A República nasceu de um golpe de estado dado por Deodoro da Fonseca. A Revolução de 1930, a única que talvez possa ter esse título, promoveu mudanças, mas não daquela magnitude. Aqui não se viram rupturas nem violências. O regime militar findou sob negociação.
O PT pretendia mudar o Brasil, mas para pior. O título de seu programa para as eleições de 2002 era "a ruptura necessária". Prometia "uma ruptura com o atual modelo econômico, fundado na abertura e na desregulação radicais da economia nacional e na consequente subordinação de sua dinâmica aos interesses e humores do capital financeiro globalizado". Soa ridículo hoje, não?
As propostas continham inúmeros disparates: controles na entrada de capitais estrangeiros, mudanças na captação de recursos externos pelos bancos e a denúncia do acordo com o FMI, entre outros. Uma reforma tributária taxaria as grandes fortunas. O pagamento dos juros da dívida pública seria reduzido de forma voluntarista.
A Carta ao Povo Brasileiro (22 de junho de 2002) foi o começo do fim dessas ideias. Nela, Lula ainda defendia "um projeto nacional alternativo", mas falava em "respeito aos contratos e obrigações do país". O superávit primário seria preservado "para impedir que a dívida interna aumente e destrua a confiança na capacidade do governo de honrar os seus compromissos".
As visões econômicas do PT morreram de vez com Lula na Presidência. Um banqueiro foi presidir o Banco Central. No primeiro mês, elevaram-se a taxa de juros e a meta de superávit primário. Tudo o que o PT tachava de neoliberal. Na política, a coalizão de governo incluiu partidos políticos e figuras conhecidas que o PT abominava.
A política econômica foi mantida. Com a preservação da plataforma construída por seus antecessores, Lula conseguiu alçar o Brasil a novas alturas. O amadurecimento das mudanças anteriores ampliou o potencial de crescimento da economia, que foi adicionalmente impulsionada pelos ventos favoráveis da economia mundial entre 2003 e 2008. Tornou-se possível manter e ampliar os programas sociais herdados.
Muito se deve à intuição política do presidente e ao trabalho de seu primeiro ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Lula percebeu que a preservação de sua popularidade dependia do controle da inflação e por isso reforçou a autonomia do Banco Central. Ele cresEnviado por Ricardo Noblat - 16.1.2010| 15h02m
Deu na Veja
O PT mudou o Brasil? Ou foi o contrário?
"Lula e o PT conseguiram, mediante a desconstrução sistemática das realizações de outros governos, convencer a maioria de que o Brasil teria começado em 2003. Nunca antes"
De Maílson da Nóbrega:
Nunca antes na história deste país um partido se vangloriou tanto de feitos que não realizou. É o caso do PT. No seu último programa no rádio e na TV, o partido reivindicou o papel de marco zero. Até a estabilização da economia teria sido obra sua. Os petistas se jactam de ter mudado o país. Para um de seus senadores, 2009 foi "a segunda descoberta do Brasil".
No mundo, três transformações radicais sobressaem: (1) a Revolução Gloriosa (1688), que extinguiu o absolutismo inglês e levaria a Inglaterra à Revolução Industrial; (2) a Revolução Americana (1776), da qual surgiria a maior potência no século XIX; e (3) a Revolução Francesa (1789), a profunda mudança que substituiria os privilégios da nobreza, do clero e dos senhores feudais pelos direitos inalienáveis dos cidadãos.
Nada desse porte aconteceu no Brasil, nem agora nem antes. A independência foi declarada por dom Pedro, representante da metrópole. A República nasceu de um golpe de estado dado por Deodoro da Fonseca. A Revolução de 1930, a única que talvez possa ter esse título, promoveu mudanças, mas não daquela magnitude. Aqui não se viram rupturas nem violências. O regime militar findou sob negociação.
O PT pretendia mudar o Brasil, mas para pior. O título de seu programa para as eleições de 2002 era "a ruptura necessária". Prometia "uma ruptura com o atual modelo econômico, fundado na abertura e na desregulação radicais da economia nacional e na consequente subordinação de sua dinâmica aos interesses e humores do capital financeiro globalizado". Soa ridículo hoje, não?
As propostas continham inúmeros disparates: controles na entrada de capitais estrangeiros, mudanças na captação de recursos externos pelos bancos e a denúncia do acordo com o FMI, entre outros. Uma reforma tributária taxaria as grandes fortunas. O pagamento dos juros da dívida pública seria reduzido de forma voluntarista.
A Carta ao Povo Brasileiro (22 de junho de 2002) foi o começo do fim dessas ideias. Nela, Lula ainda defendia "um projeto nacional alternativo", mas falava em "respeito aos contratos e obrigações do país". O superávit primário seria preservado "para impedir que a dívida interna aumente e destrua a confiança na capacidade do governo de honrar os seus compromissos".
As visões econômicas do PT morreram de vez com Lula na Presidência. Um banqueiro foi presidir o Banco Central. No primeiro mês, elevaram-se a taxa de juros e a meta de superávit primário. Tudo o que o PT tachava de neoliberal. Na política, a coalizão de governo incluiu partidos políticos e figuras conhecidas que o PT abominava.
A política econômica foi mantida. Com a preservação da plataforma construída por seus antecessores, Lula conseguiu alçar o Brasil a novas alturas. O amadurecimento das mudanças anteriores ampliou o potencial de crescimento da economia, que foi adicionalmente impulsionada pelos ventos favoráveis da economia mundial entre 2003 e 2008. Tornou-se possível manter e ampliar os programas sociais herdados.
Muito se deve à intuição política do presidente e ao trabalho de seu primeiro ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Lula percebeu que a preservação de sua popularidade dependia do controle da inflação e por isso reforçou a autonomia do Banco Central. Ele cresceu aos olhos do mundo em razão de sua simpatia, de seu carisma e por ser um líder de esquerda moderado, defensor da democracia e da economia de mercado.
Lula e o PT conseguiram, mediante a desconstrução sistemática das realizações de outros governos, convencer a maioria de que o Brasil teria começado em 2003. Nunca antes. É um grande tento, que requereu doses elevadas de desfaçatez. Recentemente, na falta de energia no Sul e Sudeste, a preocupação não foi explicar, mas mostrar que o apagão de Lula era melhor que o de FHC.
A manutenção da política econômica
ceu aos olhos do mundo em razão de sua simpatia, de seu carisma e por ser um líder de esquerda moderado, defensor da democracia e da economia de mercado.
Lula e o PT conseguiram, mediante a desconstrução sistemática das realizações de outros governos, convencer a maioria de que o Brasil teria começado em 2003. Nunca antes. É um grande tento, que requereu doses elevadas de desfaçatez. Recentemente, na falta de energia no Sul e Sudeste, a preocupação não foi explicar, mas mostrar que o apagão de Lula era melhor que o de FHC.
A manutenção da política econômica foi uma decisão corajosa. Respondeu a um novo ambiente, caracterizado pela intolerância da sociedade à inflação, pela imprensa livre, pela nascente valorização da democracia e pela disciplina do mercado. Lula curvou-se às imposições dessa nova realidade. Ainda bem. O Brasil mudou o PT, que agora é, em todos os sentidos, um partido como os outros.
"Lula e o PT conseguiram, mediante a desconstrução sistemática das realizações de outros governos, convencer a maioria de que o Brasil teria começado em 2003. Nunca antes"
De Maílson da Nóbrega:
Nunca antes na história deste país um partido se vangloriou tanto de feitos que não realizou. É o caso do PT. No seu último programa no rádio e na TV, o partido reivindicou o papel de marco zero. Até a estabilização da economia teria sido obra sua. Os petistas se jactam de ter mudado o país. Para um de seus senadores, 2009 foi "a segunda descoberta do Brasil".
No mundo, três transformações radicais sobressaem: (1) a Revolução Gloriosa (1688), que extinguiu o absolutismo inglês e levaria a Inglaterra à Revolução Industrial; (2) a Revolução Americana (1776), da qual surgiria a maior potência no século XIX; e (3) a Revolução Francesa (1789), a profunda mudança que substituiria os privilégios da nobreza, do clero e dos senhores feudais pelos direitos inalienáveis dos cidadãos.
Nada desse porte aconteceu no Brasil, nem agora nem antes. A independência foi declarada por dom Pedro, representante da metrópole. A República nasceu de um golpe de estado dado por Deodoro da Fonseca. A Revolução de 1930, a única que talvez possa ter esse título, promoveu mudanças, mas não daquela magnitude. Aqui não se viram rupturas nem violências. O regime militar findou sob negociação.
O PT pretendia mudar o Brasil, mas para pior. O título de seu programa para as eleições de 2002 era "a ruptura necessária". Prometia "uma ruptura com o atual modelo econômico, fundado na abertura e na desregulação radicais da economia nacional e na consequente subordinação de sua dinâmica aos interesses e humores do capital financeiro globalizado". Soa ridículo hoje, não?
As propostas continham inúmeros disparates: controles na entrada de capitais estrangeiros, mudanças na captação de recursos externos pelos bancos e a denúncia do acordo com o FMI, entre outros. Uma reforma tributária taxaria as grandes fortunas. O pagamento dos juros da dívida pública seria reduzido de forma voluntarista.
A Carta ao Povo Brasileiro (22 de junho de 2002) foi o começo do fim dessas ideias. Nela, Lula ainda defendia "um projeto nacional alternativo", mas falava em "respeito aos contratos e obrigações do país". O superávit primário seria preservado "para impedir que a dívida interna aumente e destrua a confiança na capacidade do governo de honrar os seus compromissos".
As visões econômicas do PT morreram de vez com Lula na Presidência. Um banqueiro foi presidir o Banco Central. No primeiro mês, elevaram-se a taxa de juros e a meta de superávit primário. Tudo o que o PT tachava de neoliberal. Na política, a coalizão de governo incluiu partidos políticos e figuras conhecidas que o PT abominava.
A política econômica foi mantida. Com a preservação da plataforma construída por seus antecessores, Lula conseguiu alçar o Brasil a novas alturas. O amadurecimento das mudanças anteriores ampliou o potencial de crescimento da economia, que foi adicionalmente impulsionada pelos ventos favoráveis da economia mundial entre 2003 e 2008. Tornou-se possível manter e ampliar os programas sociais herdados.
Muito se deve à intuição política do presidente e ao trabalho de seu primeiro ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Lula percebeu que a preservação de sua popularidade dependia do controle da inflação e por isso reforçou a autonomia do Banco Central. Ele cresEnviado por Ricardo Noblat - 16.1.2010| 15h02m
Deu na Veja
O PT mudou o Brasil? Ou foi o contrário?
"Lula e o PT conseguiram, mediante a desconstrução sistemática das realizações de outros governos, convencer a maioria de que o Brasil teria começado em 2003. Nunca antes"
De Maílson da Nóbrega:
Nunca antes na história deste país um partido se vangloriou tanto de feitos que não realizou. É o caso do PT. No seu último programa no rádio e na TV, o partido reivindicou o papel de marco zero. Até a estabilização da economia teria sido obra sua. Os petistas se jactam de ter mudado o país. Para um de seus senadores, 2009 foi "a segunda descoberta do Brasil".
No mundo, três transformações radicais sobressaem: (1) a Revolução Gloriosa (1688), que extinguiu o absolutismo inglês e levaria a Inglaterra à Revolução Industrial; (2) a Revolução Americana (1776), da qual surgiria a maior potência no século XIX; e (3) a Revolução Francesa (1789), a profunda mudança que substituiria os privilégios da nobreza, do clero e dos senhores feudais pelos direitos inalienáveis dos cidadãos.
Nada desse porte aconteceu no Brasil, nem agora nem antes. A independência foi declarada por dom Pedro, representante da metrópole. A República nasceu de um golpe de estado dado por Deodoro da Fonseca. A Revolução de 1930, a única que talvez possa ter esse título, promoveu mudanças, mas não daquela magnitude. Aqui não se viram rupturas nem violências. O regime militar findou sob negociação.
O PT pretendia mudar o Brasil, mas para pior. O título de seu programa para as eleições de 2002 era "a ruptura necessária". Prometia "uma ruptura com o atual modelo econômico, fundado na abertura e na desregulação radicais da economia nacional e na consequente subordinação de sua dinâmica aos interesses e humores do capital financeiro globalizado". Soa ridículo hoje, não?
As propostas continham inúmeros disparates: controles na entrada de capitais estrangeiros, mudanças na captação de recursos externos pelos bancos e a denúncia do acordo com o FMI, entre outros. Uma reforma tributária taxaria as grandes fortunas. O pagamento dos juros da dívida pública seria reduzido de forma voluntarista.
A Carta ao Povo Brasileiro (22 de junho de 2002) foi o começo do fim dessas ideias. Nela, Lula ainda defendia "um projeto nacional alternativo", mas falava em "respeito aos contratos e obrigações do país". O superávit primário seria preservado "para impedir que a dívida interna aumente e destrua a confiança na capacidade do governo de honrar os seus compromissos".
As visões econômicas do PT morreram de vez com Lula na Presidência. Um banqueiro foi presidir o Banco Central. No primeiro mês, elevaram-se a taxa de juros e a meta de superávit primário. Tudo o que o PT tachava de neoliberal. Na política, a coalizão de governo incluiu partidos políticos e figuras conhecidas que o PT abominava.
A política econômica foi mantida. Com a preservação da plataforma construída por seus antecessores, Lula conseguiu alçar o Brasil a novas alturas. O amadurecimento das mudanças anteriores ampliou o potencial de crescimento da economia, que foi adicionalmente impulsionada pelos ventos favoráveis da economia mundial entre 2003 e 2008. Tornou-se possível manter e ampliar os programas sociais herdados.
Muito se deve à intuição política do presidente e ao trabalho de seu primeiro ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Lula percebeu que a preservação de sua popularidade dependia do controle da inflação e por isso reforçou a autonomia do Banco Central. Ele cresceu aos olhos do mundo em razão de sua simpatia, de seu carisma e por ser um líder de esquerda moderado, defensor da democracia e da economia de mercado.
Lula e o PT conseguiram, mediante a desconstrução sistemática das realizações de outros governos, convencer a maioria de que o Brasil teria começado em 2003. Nunca antes. É um grande tento, que requereu doses elevadas de desfaçatez. Recentemente, na falta de energia no Sul e Sudeste, a preocupação não foi explicar, mas mostrar que o apagão de Lula era melhor que o de FHC.
A manutenção da política econômica
ceu aos olhos do mundo em razão de sua simpatia, de seu carisma e por ser um líder de esquerda moderado, defensor da democracia e da economia de mercado.
Lula e o PT conseguiram, mediante a desconstrução sistemática das realizações de outros governos, convencer a maioria de que o Brasil teria começado em 2003. Nunca antes. É um grande tento, que requereu doses elevadas de desfaçatez. Recentemente, na falta de energia no Sul e Sudeste, a preocupação não foi explicar, mas mostrar que o apagão de Lula era melhor que o de FHC.
A manutenção da política econômica foi uma decisão corajosa. Respondeu a um novo ambiente, caracterizado pela intolerância da sociedade à inflação, pela imprensa livre, pela nascente valorização da democracia e pela disciplina do mercado. Lula curvou-se às imposições dessa nova realidade. Ainda bem. O Brasil mudou o PT, que agora é, em todos os sentidos, um partido como os outros.
Trabalhar é sofrer-lya luft:
"Assim como o sofrimento pode nos tornar amargos e até emocionalmente estéreis, o trabalho pode aviltar, humilhar,explorar e solapar qualquer dignidade"
O trabalho enobrece" é uma dessas frases feitas que a gente repete sem refletir no que significam, feito reza automatizada. Outra é "A quem Deus ama, ele faz sofrer", que fala de uma divindade cruel, fria, que não mereceria uma vela acesa sequer. Sinto muito: nem sempre trabalhar nos torna mais nobres, nem sempre a dor nos deixa mais justos, mais generosos. O tempo para contemplação da arte e da natureza, ou curtição dos afetos, por exemplo, deve enobrecer bem mais. Ser feliz, viver com alguma harmonia, há de nos tornar melhores do que a desgraça. A ilusão de que o trabalho e o sofrimento nos aperfeiçoam é uma ideia que deve ser reavaliada e certamente desmascarada.
O trabalho tem de ser o primeiro dos nossos valores, nos ensinaram, colocando à nossa frente cartazes pintados que impedem que a gente enxergue além disso. Eu prefiro a velha dama esquecida num canto feito uma mala furada, que se chama ética. Palavra refinada para dizer o que está ao alcance de qualquer um de nós: decência. Prefiro, ao mito do trabalho como única salvação, e da dor como cursinho de aperfeiçoamento pessoal, a realidade possível dos amores e dos valores que nos tornariam mais humanos. Para que se trabalhe com mais força e ímpeto e se viva com mais esperança.
O trabalho que dá valor ao ser humano e algum sentido à vida pode, por outro lado, deformar e destruir. O desprezo pela alegria e pelo lazer espalha-se entre muitos de nossos conceitos, e nos sentimos culpados se não estamos em atividade, na cultura do corre-corre e da competência pela competência, do poder pelo poder, por mais tolo que ele seja.
Assim como o sofrimento pode nos tornar amargos e até emocionalmente estéreis, o trabalho pode aviltar, humilhar, explorar e solapar qualquer dignidade, roubar nosso tempo, saúde e possibilidade de crescimento. Na verdade, o que enobrece é a responsabilidade que os deveres, incluindo os de trabalho, trazem consigo. O que nos pode tornar mais bondosos e tolerantes, eventualmente, nasce do sofrimento suportado com dignidade, quem sabe com estoicismo. Mas um ser humano decente é resultado de muito mais que isso: de genética, da família, da sociedade em que está inserido, da sorte ou do azar, e de escolhas pessoais (essas a gente costuma esquecer: queixar-se é tão mais fácil).
Quanto tempo o meu trabalho – se é que temos escolha, pois a maioria de nós dá graças a Deus se consegue trabalhar por um salário vil – me permite para lazer, ou o que eu de verdade quero, se é que paro para refletir sobre isso? Quanto tempo eu me dou para viver? Quanto sobra para meu crescimento pessoal, para tentar observar o mundo e descobrir meu lugar nele, por menor que seja, ou para entender minha cultura e minha gente, para amar minha família?
E, se o luxo desse tempo existe, eu o emprego para ser, para viver, ou para correr atrás de mais um trabalho a fim de pagar dívidas nem sempre necessárias? Ou apenas não me sinto bem ficando sem atividade, tenho de me agitar sem vontade, rir sem alegria, gritar sem entusiasmo, correr na esteira além do indispensável para me manter sadio, vagar pe-los shoppings quando nada tenho a fazer ali e já comprei todo o possível – muito mais do que preciso, no maior número de prestações que me ofereceram? E, quando tenho momentos de alegria, curto isso ou me preocupo: algo deve estar errado?
Servos de uma culpa generalizada, fabricamos caprichosamente cada elo do círculo infernal da nossa infelicidade e alienação. Essas frases feitas, das quais aqui citei só duas, podem parecer banais. Até rimos delas, quando alguém nos leva a refletir a respeito. Mas na verdade são instrumento de dominação de mentes: sofra e não se queixe, não se poupe, não se dê folga, mate-se trabalhando, seja humilde, seja pobre, sofrer é nosso destino, darás à luz com dor – e todo o resto da tola e desumana lavagem cerebral de muitos séculos, que a gente em geral nem questiona mais.
O trabalho enobrece" é uma dessas frases feitas que a gente repete sem refletir no que significam, feito reza automatizada. Outra é "A quem Deus ama, ele faz sofrer", que fala de uma divindade cruel, fria, que não mereceria uma vela acesa sequer. Sinto muito: nem sempre trabalhar nos torna mais nobres, nem sempre a dor nos deixa mais justos, mais generosos. O tempo para contemplação da arte e da natureza, ou curtição dos afetos, por exemplo, deve enobrecer bem mais. Ser feliz, viver com alguma harmonia, há de nos tornar melhores do que a desgraça. A ilusão de que o trabalho e o sofrimento nos aperfeiçoam é uma ideia que deve ser reavaliada e certamente desmascarada.
O trabalho tem de ser o primeiro dos nossos valores, nos ensinaram, colocando à nossa frente cartazes pintados que impedem que a gente enxergue além disso. Eu prefiro a velha dama esquecida num canto feito uma mala furada, que se chama ética. Palavra refinada para dizer o que está ao alcance de qualquer um de nós: decência. Prefiro, ao mito do trabalho como única salvação, e da dor como cursinho de aperfeiçoamento pessoal, a realidade possível dos amores e dos valores que nos tornariam mais humanos. Para que se trabalhe com mais força e ímpeto e se viva com mais esperança.
O trabalho que dá valor ao ser humano e algum sentido à vida pode, por outro lado, deformar e destruir. O desprezo pela alegria e pelo lazer espalha-se entre muitos de nossos conceitos, e nos sentimos culpados se não estamos em atividade, na cultura do corre-corre e da competência pela competência, do poder pelo poder, por mais tolo que ele seja.
Assim como o sofrimento pode nos tornar amargos e até emocionalmente estéreis, o trabalho pode aviltar, humilhar, explorar e solapar qualquer dignidade, roubar nosso tempo, saúde e possibilidade de crescimento. Na verdade, o que enobrece é a responsabilidade que os deveres, incluindo os de trabalho, trazem consigo. O que nos pode tornar mais bondosos e tolerantes, eventualmente, nasce do sofrimento suportado com dignidade, quem sabe com estoicismo. Mas um ser humano decente é resultado de muito mais que isso: de genética, da família, da sociedade em que está inserido, da sorte ou do azar, e de escolhas pessoais (essas a gente costuma esquecer: queixar-se é tão mais fácil).
Quanto tempo o meu trabalho – se é que temos escolha, pois a maioria de nós dá graças a Deus se consegue trabalhar por um salário vil – me permite para lazer, ou o que eu de verdade quero, se é que paro para refletir sobre isso? Quanto tempo eu me dou para viver? Quanto sobra para meu crescimento pessoal, para tentar observar o mundo e descobrir meu lugar nele, por menor que seja, ou para entender minha cultura e minha gente, para amar minha família?
E, se o luxo desse tempo existe, eu o emprego para ser, para viver, ou para correr atrás de mais um trabalho a fim de pagar dívidas nem sempre necessárias? Ou apenas não me sinto bem ficando sem atividade, tenho de me agitar sem vontade, rir sem alegria, gritar sem entusiasmo, correr na esteira além do indispensável para me manter sadio, vagar pe-los shoppings quando nada tenho a fazer ali e já comprei todo o possível – muito mais do que preciso, no maior número de prestações que me ofereceram? E, quando tenho momentos de alegria, curto isso ou me preocupo: algo deve estar errado?
Servos de uma culpa generalizada, fabricamos caprichosamente cada elo do círculo infernal da nossa infelicidade e alienação. Essas frases feitas, das quais aqui citei só duas, podem parecer banais. Até rimos delas, quando alguém nos leva a refletir a respeito. Mas na verdade são instrumento de dominação de mentes: sofra e não se queixe, não se poupe, não se dê folga, mate-se trabalhando, seja humilde, seja pobre, sofrer é nosso destino, darás à luz com dor – e todo o resto da tola e desumana lavagem cerebral de muitos séculos, que a gente em geral nem questiona mais.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Mudança de ano, que, com o Natal, para uns é celebração (estou desse lado), para outros, melancolia.
O que nos atrapalha é que alguém inventou que temos de tomar decisões e fazer projetos para esse novo ano. São quase sempre irreais, quase sempre não cumpridos. Aí já nos frustramos neste mundo de tantas frustrações, em que a gente teria de ser bonito, saudável, competitivo e competente, bom de cama e ruim de mesa, e uma lista interminável de "ter de".
Pois eu acho que 2010 pode ser o Ano de Pensar. Bom projeto, boa intenção. Uma só, e já é bastante. Pensar: coisa que tão pouco fazemos, embora seja o que nos distingue das outras feras.
Publiquei recentemente mais um livro para crianças (mas os adultos se divertem), chamado Criança Pensa. Com ele respondi, décadas depois, ao duplo lema dos adultos de um outro tempo, de que criança não pensa, criança não tem querer. Hoje tem querer até demais, mas isso é assunto para outra crônica. E pensar, continua pensando, apesar de todos os jogos eletrônicos e programas de computador imagináveis.
Se criança pensa – e pensa lindamente, segundo descobrimos e escrevemos, um de meus filhos, professor de filosofia, e eu –, adultos teriam de pensar ainda muito mais. Porém a gente vai se enquadrando. Família, escola, sociedade e cultura, seja o que isso for, tornam-nos menos pensantes e menos questionadores. Alguns escapam dessa mordaça e desabrocham. Podem ser os menos confortáveis, mas são os que movem o mundo.
Pensar não é uma obrigação: é um direito, e deveria ser um prazer. Naquela horinha no ônibus ou no carro, andando, nadando, comendo, não fazendo nada – o que é um luxo, e nós, bobos, poucos saboreamos –, nada melhor do que deixar tudo de lado e refletir, ou deixar as ideias vagando numa atenção flutuante, como dizia Freud. Largar mão, por alguns instantes, dos compromissos, do cansaço, da falta de tempo, da dificuldade em ser feliz, da pouca harmonia consigo e com o mundo, das tragédias, das decepções universais ou pessoais – e dar-se o prêmio de pensar. Para algumas pessoas, parar para pensar não é desmontar.
E ficariam dispensados os dez ou doze ou três propósitos, as intenções fajutas eternamente repetidas – como as de emagrecer, romper ou melhorar o relacionamento, sair de casa, voltar a estudar, vencer na vida, ter filhos, mudar de emprego ou de parceiro, deixar de beber, de fumar, de se drogar com outras substâncias. A essência seria esta: neste ano, eu vou pensar. Em mim, na vida, nos outros, no mundo, em mil coisas ou numa coisa só – que seja realmente importante.
Pensar para ser uma pessoa mais decente; pensar para amar mais e melhor, começando por mim mesmo; pensar para votar com mais lucidez; pensar no que de verdade eu quero, se é que eu quero alguma coisa – ou sou do tipo que se deixa levar por desânimo, preguiça ou desencanto?
Pensar simplesmente para criar meu mundo particular, não num ataque de loucura, mas de criatividade. Pois o real não existe, existe o que vemos dele. Dentro de certos limites, podemos, cada um de nós, inventar o nosso mundo: sendo mais céticos ou mais otimistas, com aquele grãozinho de loucura necessário para que haja beleza e claridade e não vivamos numa caverna de trevas.
Basta ver como pensam as crianças, ainda livres das nossas inibições. "Fadas e anjos existem, não é?", pergunta-me uma delas. Respondo honestamente: "Para quem acredita, existem". Acredito que, apesar de Copenhague, o mundo não vai torrar (as opiniões dos cientistas divergem), que vamos ter motivo para nos orgulhar de nossos países, que não vai mais haver tanta miséria e cinismo, que os colégios vão ensinar melhor e exigir mais em lugar de facilitar tão absurdamente e despejar tanta gente despreparada no mundo.
Sei que todos algum dia acordamos com a senhora desilusão sentada na beira da cama. Mas a gente vai à luta e inventa um novo sonho, uma esperança, mesmo recauchutada: vale tudo menos chorar tempo demais. Pois sempre há coisas boas para pensar. Algumas se realizam. Criança sabe disso. Feliz 2010.
O que nos atrapalha é que alguém inventou que temos de tomar decisões e fazer projetos para esse novo ano. São quase sempre irreais, quase sempre não cumpridos. Aí já nos frustramos neste mundo de tantas frustrações, em que a gente teria de ser bonito, saudável, competitivo e competente, bom de cama e ruim de mesa, e uma lista interminável de "ter de".
Pois eu acho que 2010 pode ser o Ano de Pensar. Bom projeto, boa intenção. Uma só, e já é bastante. Pensar: coisa que tão pouco fazemos, embora seja o que nos distingue das outras feras.
Publiquei recentemente mais um livro para crianças (mas os adultos se divertem), chamado Criança Pensa. Com ele respondi, décadas depois, ao duplo lema dos adultos de um outro tempo, de que criança não pensa, criança não tem querer. Hoje tem querer até demais, mas isso é assunto para outra crônica. E pensar, continua pensando, apesar de todos os jogos eletrônicos e programas de computador imagináveis.
Se criança pensa – e pensa lindamente, segundo descobrimos e escrevemos, um de meus filhos, professor de filosofia, e eu –, adultos teriam de pensar ainda muito mais. Porém a gente vai se enquadrando. Família, escola, sociedade e cultura, seja o que isso for, tornam-nos menos pensantes e menos questionadores. Alguns escapam dessa mordaça e desabrocham. Podem ser os menos confortáveis, mas são os que movem o mundo.
Pensar não é uma obrigação: é um direito, e deveria ser um prazer. Naquela horinha no ônibus ou no carro, andando, nadando, comendo, não fazendo nada – o que é um luxo, e nós, bobos, poucos saboreamos –, nada melhor do que deixar tudo de lado e refletir, ou deixar as ideias vagando numa atenção flutuante, como dizia Freud. Largar mão, por alguns instantes, dos compromissos, do cansaço, da falta de tempo, da dificuldade em ser feliz, da pouca harmonia consigo e com o mundo, das tragédias, das decepções universais ou pessoais – e dar-se o prêmio de pensar. Para algumas pessoas, parar para pensar não é desmontar.
E ficariam dispensados os dez ou doze ou três propósitos, as intenções fajutas eternamente repetidas – como as de emagrecer, romper ou melhorar o relacionamento, sair de casa, voltar a estudar, vencer na vida, ter filhos, mudar de emprego ou de parceiro, deixar de beber, de fumar, de se drogar com outras substâncias. A essência seria esta: neste ano, eu vou pensar. Em mim, na vida, nos outros, no mundo, em mil coisas ou numa coisa só – que seja realmente importante.
Pensar para ser uma pessoa mais decente; pensar para amar mais e melhor, começando por mim mesmo; pensar para votar com mais lucidez; pensar no que de verdade eu quero, se é que eu quero alguma coisa – ou sou do tipo que se deixa levar por desânimo, preguiça ou desencanto?
Pensar simplesmente para criar meu mundo particular, não num ataque de loucura, mas de criatividade. Pois o real não existe, existe o que vemos dele. Dentro de certos limites, podemos, cada um de nós, inventar o nosso mundo: sendo mais céticos ou mais otimistas, com aquele grãozinho de loucura necessário para que haja beleza e claridade e não vivamos numa caverna de trevas.
Basta ver como pensam as crianças, ainda livres das nossas inibições. "Fadas e anjos existem, não é?", pergunta-me uma delas. Respondo honestamente: "Para quem acredita, existem". Acredito que, apesar de Copenhague, o mundo não vai torrar (as opiniões dos cientistas divergem), que vamos ter motivo para nos orgulhar de nossos países, que não vai mais haver tanta miséria e cinismo, que os colégios vão ensinar melhor e exigir mais em lugar de facilitar tão absurdamente e despejar tanta gente despreparada no mundo.
Sei que todos algum dia acordamos com a senhora desilusão sentada na beira da cama. Mas a gente vai à luta e inventa um novo sonho, uma esperança, mesmo recauchutada: vale tudo menos chorar tempo demais. Pois sempre há coisas boas para pensar. Algumas se realizam. Criança sabe disso. Feliz 2010.
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