O Natal dos sem-álcool
Pela inclusão social dos que não bebem
Revista Época - Cristiane Segatto
Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 14 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais de jornalismo
Festas de fim de ano são uma prova de fogo para quem não bebe. É tempo de amigo-secreto, confraternização da firma, encontro dos formandos da turma de 1900 e bolinha, ceia de Natal, farra de Reveillon.Tudo obrigatoriamente regado a álcool. Quem não bebe (seja lá por qual motivo) precisa demonstrar um talento inabalável para a diplomacia. É preciso muito jogo de cintura para contornar a avacalhação geral sem perder a pose. Ninguém se toca que o colega sóbrio não bebe porque toma antidepressivo. Ou anticonvulsivante. Ou outro remédio qualquer que não pode ser misturado ao álcool. Ou não bebe porque, simplesmente, é um alcoólatra em recuperação.
“Na nossa sociedade, é difícil aceitar uma pessoa que não bebe. Não beber é como uma ofensa”, diz o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, presidente-executivo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA). “Quem não é alcoólatra tem dificuldade para enfrentar essa pressão social. Imagine o que acontece com os que são alcoólatras”, afirma.
Cerca de 19 milhões de brasileiros sofrem de dependência ou abuso de álcool. Abuso significa uso com problemas. São as pessoas que bebem e chegam atrasadas ao trabalho. Ou provocam acidentes de trânsito. Ou agridem alguém.
Até que elas decidam se tratar, vivem um teatro. Tentam enganar a si mesmas e aos que estão ao redor com a ilusão do autocontrole. Quase todas as manhãs observo de longe um velhinho que vive algo assim. Ele encosta no balcão da padaria e o funcionário pergunta:
– O de sempre?
– O de sempre.
O rapaz entorna a pinga até preencher a metade de um copo americano. Coloca o copo sobre o balcão e, ao lado dele, uma garrafa de soda limonada. Aos poucos, o velhinho vai misturando os dois líquidos transparentes. Quem para no balcão para comer o pão com manteiga de todos os dias reconhece o freguês da “soda limonada”.
Ele tem olhos tristes, cabelos brancos, corpo frágil. Fico me perguntando se algum dia tentou se tratar. Ou se ainda não se deu conta de que é dependente.
Dedico essa coluna de Natal a todos os dependentes que tiveram a coragem de assumir o problema e de persistir no tratamento. Festas de fim de ano podem ser momentos difíceis. Resolvi conversar sobre isso com o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, que tem uma enorme experiência com dependentes de álcool e drogas.
ÉPOCA – As festas de fim de ano aumentam o risco de recaídas?
Arthur Guerra de Andrade – Elas podem aumentar a vulnerabilidade dos pacientes de risco. Um número assustador de recaídas ocorre nos momentos bons da vida. Quando a pessoa está numa celebração ou quando recebe uma notícia boa. Cerca de 30% delas ocorrem quando o paciente recebe uma promoção, tem um filho ou em outros acontecimentos positivos.
ÉPOCA – Basta um gole de álcool para a pessoa recair?
Andrade – Quem recai não admite que tem uma doença (o alcoolismo). Quer mostrar que é capaz de beber moderadamente, sem perder o controle. Acha que vai beber dois uísques e conseguir parar. As pessoas precisam entender que alcoolismo não é uma questão de falta de força de vontade. É um processo bioquímico.
ÉPOCA – Que cuidados as famílias e os amigos devem ter nessas celebrações?
Andrade – Muitas vezes os familiares acham que podem oferecer ao alcoólatra meia taça de Prosecco só na hora do brinde. Isso não funciona. A molécula de etanol entra nas papilas gustativas e o cérebro já é alertado. Conforme o álcool começa a circular no organismo, o cérebro vai pedindo mais. É irrefreável. Para quem já perdeu o controle antes, é tudo ou nada.
ÉPOCA – É impossível estar em tratamento e ainda assim participar do brinde no Natal e no Reveillon?
Andrade – A cada 100 médicos que tratam alcoolismo, 95 vão dizer que uma pessoa em tratamento não pode beber nem uma gota de álcool. Alguns médicos mais jovens ou mais ousados acham que é possível permitir que uma pessoa em recuperação beba socialmente de vez em quando. Tenho simpatia por essa ideia, mas depois de 30 anos lidando com alcoólatras acho que essa é uma ideia romântica. Não me lembro de um paciente sequer que tenha voltado a beber socialmente.
ÉPOCA – Bebidas como cerveja ou vinho sem álcool ajudam ou atrapalham?
Andrade – Atrapalham. Não existe fermentação sem álcool. Essas bebidas podem não dar o efeito embriagante mas ainda assim não são totalmente livres de álcool. Se a pessoa é convidada para um evento e sabe que os amigos vão estar todos bebendo talvez seja melhor nem ir.
ÉPOCA – Por que algumas pessoas nunca vão ter problemas com álcool enquanto outras, na mesma família, vão se tornar alcoólatras?
Andrade – Estudos realizados com gêmeos criados no mesmo ambiente familiar e cultural mostram que um dos irmãos é capaz de beber moderadamente enquanto outro perde totalmente o controle. Não sabemos o que está por trás dessas diferenças. Quem descobrir isso pode ganhar o Prêmio Nobel.
ÉPOCA – A OMS está preparando uma estratégia global para reduzir os danos provocados pelo álcool. Já se fala até em alcoolismo passivo. O álcool vai se tornar socialmente inaceitável como aconteceu com o cigarro?
Andrade – O álcool é muito diferente do tabaco. Ninguém defende uso moderado de tabaco. Mas as pessoas não são contra o álcool. São contra o abuso de álcool. O abuso é de fato um problema seríssimo de saúde pública. Todos nós conhecemos um alcoólatra no trabalho, na família, no condomínio. São 19 milhões no Brasil. Além de prejudicar a si mesmos, eles podem causar danos a outras pessoas ao provocar acidentes e outras formas de violência. Mas essa ideia de lançar uma estratégia global me parece um tanto romântica. Há diferentes padrões de consumo de álcool nas diversas regiões do mundo. São realidades distintas. Ouvi um dia desses que uma das propostas é aumentar o preço das bebidas. Isso não adianta. Só vai estimular o consumo de pinga feita em alambiques clandestinos e outras coisas do gênero.
Esta é a penúltima coluna de 2009. Neste fim de ano ofereço um brinde à turma da água com gás, da Coca-cola com gelo e limão, do suco de pitanga. É preciso entender as razões dos sem-álcool. E aceitá-los como são.
(Cristiane Segatto escreve às sextas-feiras.)
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Conheça a nova lei de adoção
A nova lei da adoção é a grande esperança para mudar a vida de crianças que vivem em abrigos no Brasil. Ela define prazos para evitar que meninos e meninas cresçam sem família.
“Com quem você quer morar?”. Essa é a maior dúvida dos dois irmãos. Eles passaram quase a vida inteira no abrigo. Hoje têm oito e dez anos, aprenderam a cuidar um do outro, mas sentem que falta alguém.
- A mãe e o pai
- O que eles iam fazer com vocês?
- Cuidar de nós
- Fazer carinho
O problema é que não há previsão para eles saírem do abrigo. Os assistentes sociais passaram longos cinco anos tentando convencer a mãe biológica a aceitar os filhos de volta, mas ela não quis. Só então foi aberto o processo na justiça, que já dura três anos.
As histórias das crianças que vivem em abrigos estão em pastas acumuladas nos fóruns do país inteiro. O destino de cada uma delas depende de juízes e promotores de justiça.
Em Fortaleza, 394 crianças não podem sair das instituições porque não há ordem judicial para isso. Alguns promotores levam quase um ano para dar início ao processo e a espera pela decisão do juiz pode levar mais quatro anos. Pela nova lei isso tem que mudar.
“O que essa lei tem de diferente é a fixação de um prazo para que o juiz decida. Nunca se enfrentou essa questão com a fixação de um prazo”, esclarece a vice-presidente da Associação dos Magistrados do Brasil, Andréa Pachá.
Agora o processo para acabar com o vínculo entre os pais biológicos e a criança, a chamada destituição do poder da família, deve correr em quatro meses. A situação de cada criança que está no abrigo tem que ser reavaliada de seis em seis meses.
O grande desafio é tornar o abrigo um lugar realmente de passagem. Por isso a nova lei determina: a criança só pode ficar no máximo dois anos. Apenas o tempo para o juiz decidir o que é melhor: a volta para casa ou a adoção.
A intenção é uma só: todas as crianças devem ter um lar, onde há segurança e amor. Psicólogos afirmam que meninos e meninas que crescem sem isso demoram mais a falar, a andar e têm baixa estima.
“Quando o pai adotivo tem este investimento de oferecer este cuidado, este aconchego, este colo à criança, é como se fosse uma decolagem. A criança vai e cria oportunidades novas na vida dela”, explica a psicóloga, Fabiana Toledo.
No ano passado, o cadastro nacional de adoção era a grande aposta para aumentar o número de crianças adotadas no Brasil. Ele foi criado para facilitar uma troca de informações fundamental: a lista de quem quer adotar e a relação de crianças que estão em abrigos do país em condições de ganhar uma nova família.
Entretanto... Ainda não funciona como deveria.
“O que está acontecendo com o cadastro é que, a criança não é inserida no cadastro, mas ela está em condições de ser adotada porque ela está realmente largada pela família, abandonada e por outro lado tem famílias querendo”, comenta a juíza, Cristiana Cordeiro.
Agora os juizados são obrigados a atualizar as informações ou... “Existe uma pena de multa na nova lei de R$ 1 mil a R$ 3 mil de não alimentação ou alimentação incorreta do cadastro, o que é muito bom”, diz Cristiana.
Assim, quem sabe, mais famílias vão ser formadas.
José Armando foi uma das primeiras crianças no Brasil a conseguir novos pais com ajuda do cadastro nacional. O casal é de Goiânia e até o ano passado ele estava num abrigo a 2.300 quilômetros de distância, em Fortaleza. O encontro mudou a vida dos três.
“Olhou pra mim com a cara fechada e disse assim ‘quem é você’, eu respondi ‘sua mãe, eu vim te buscar’, ele: ‘então cadê meu pai?’ Ele pegou foi deu um beijo em mim, ai eu esqueci que estava no meio dos outros eu rodei com essa criança, eu abraçava. Meu filho é tudo, é a minha paixão, é um pedaço de mim. Eu to sendo sincera, ele não saiu de dentro de mim, mas para mim saiu. Isso aqui é a benção da mãe”, fala a mãe, Helenita Reis.
“É filho indiscutivelmente, é filho, o amor é insuperável”, comenta o pai.
“Eu sou feliz!”, conclui a mãe.
A nova lei da adoção é a grande esperança para mudar a vida de crianças que vivem em abrigos no Brasil. Ela define prazos para evitar que meninos e meninas cresçam sem família.
“Com quem você quer morar?”. Essa é a maior dúvida dos dois irmãos. Eles passaram quase a vida inteira no abrigo. Hoje têm oito e dez anos, aprenderam a cuidar um do outro, mas sentem que falta alguém.
- A mãe e o pai
- O que eles iam fazer com vocês?
- Cuidar de nós
- Fazer carinho
O problema é que não há previsão para eles saírem do abrigo. Os assistentes sociais passaram longos cinco anos tentando convencer a mãe biológica a aceitar os filhos de volta, mas ela não quis. Só então foi aberto o processo na justiça, que já dura três anos.
As histórias das crianças que vivem em abrigos estão em pastas acumuladas nos fóruns do país inteiro. O destino de cada uma delas depende de juízes e promotores de justiça.
Em Fortaleza, 394 crianças não podem sair das instituições porque não há ordem judicial para isso. Alguns promotores levam quase um ano para dar início ao processo e a espera pela decisão do juiz pode levar mais quatro anos. Pela nova lei isso tem que mudar.
“O que essa lei tem de diferente é a fixação de um prazo para que o juiz decida. Nunca se enfrentou essa questão com a fixação de um prazo”, esclarece a vice-presidente da Associação dos Magistrados do Brasil, Andréa Pachá.
Agora o processo para acabar com o vínculo entre os pais biológicos e a criança, a chamada destituição do poder da família, deve correr em quatro meses. A situação de cada criança que está no abrigo tem que ser reavaliada de seis em seis meses.
O grande desafio é tornar o abrigo um lugar realmente de passagem. Por isso a nova lei determina: a criança só pode ficar no máximo dois anos. Apenas o tempo para o juiz decidir o que é melhor: a volta para casa ou a adoção.
A intenção é uma só: todas as crianças devem ter um lar, onde há segurança e amor. Psicólogos afirmam que meninos e meninas que crescem sem isso demoram mais a falar, a andar e têm baixa estima.
“Quando o pai adotivo tem este investimento de oferecer este cuidado, este aconchego, este colo à criança, é como se fosse uma decolagem. A criança vai e cria oportunidades novas na vida dela”, explica a psicóloga, Fabiana Toledo.
No ano passado, o cadastro nacional de adoção era a grande aposta para aumentar o número de crianças adotadas no Brasil. Ele foi criado para facilitar uma troca de informações fundamental: a lista de quem quer adotar e a relação de crianças que estão em abrigos do país em condições de ganhar uma nova família.
Entretanto... Ainda não funciona como deveria.
“O que está acontecendo com o cadastro é que, a criança não é inserida no cadastro, mas ela está em condições de ser adotada porque ela está realmente largada pela família, abandonada e por outro lado tem famílias querendo”, comenta a juíza, Cristiana Cordeiro.
Agora os juizados são obrigados a atualizar as informações ou... “Existe uma pena de multa na nova lei de R$ 1 mil a R$ 3 mil de não alimentação ou alimentação incorreta do cadastro, o que é muito bom”, diz Cristiana.
Assim, quem sabe, mais famílias vão ser formadas.
José Armando foi uma das primeiras crianças no Brasil a conseguir novos pais com ajuda do cadastro nacional. O casal é de Goiânia e até o ano passado ele estava num abrigo a 2.300 quilômetros de distância, em Fortaleza. O encontro mudou a vida dos três.
“Olhou pra mim com a cara fechada e disse assim ‘quem é você’, eu respondi ‘sua mãe, eu vim te buscar’, ele: ‘então cadê meu pai?’ Ele pegou foi deu um beijo em mim, ai eu esqueci que estava no meio dos outros eu rodei com essa criança, eu abraçava. Meu filho é tudo, é a minha paixão, é um pedaço de mim. Eu to sendo sincera, ele não saiu de dentro de mim, mas para mim saiu. Isso aqui é a benção da mãe”, fala a mãe, Helenita Reis.
“É filho indiscutivelmente, é filho, o amor é insuperável”, comenta o pai.
“Eu sou feliz!”, conclui a mãe.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
O efeito das palmadas na educação das crianças
Pessoas que crescem apanhando se tornam pais que consideram que esta é a melhor forma de educação. Psicólogos, pais e as próprias crianças falam sobre o assunto.
Kiria Meurer- Florianópolis
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O Jornal Hoje aborda um assunto que provoca muita discussão entre os pais. Palmada educa? Que castigo dar para criança desobediente? Veja o que pais e psicólogos acham sobre dar palmadas em crianças.
Os motivos não mudam muito. “Ele estava mal criado na escola, não estava obedecendo a professora, não estava fazendo as atividades”, fala uma mãe.
Criança costuma ser levada mesmo, educar não é fácil e muitas vezes a gente perde a paciência, mas é importante saber que a agressão deixa marcas:
Pessoas que crescem apanhando podem se tornar pais que pensam que este é o único jeito de criar um filho. A tendência é repetir a fórmula e muita gente encontra, de verdade, justificativas para isso, acredita até que bater pode ser um gesto de amor.
“Na verdade a palmada não é educativa, ela só é punitiva. Ela não ensina a criança o que ela pode ou não fazer, o que é permitido ou não”, fala Sandra Coimbra, psicóloga.
Criança que apanha costuma ter medo, desenvolve sentimentos que não ensinam nem educam
O exemplo é a melhor forma de ensinar.
“Se em casa está uma dificuldade e o problema é resolvido com violência com a palmada, ela vai repetir isso na escola, cola. Frequentemente ela agride os colegas porque é assim que ela aprende que os problemas são resolvidos”, diz Marlene Oadália, dona de casa.
Dona Marlene conhece o risco de dar "só uma palmadinha". “Se a gente pega para dar uma palmada se torna violência porque daí eles começam a gritar, começam a fazer birra e dai quando a gente vê a coisa ficou fora de controle”, fala.
Todo espancamento começa com a primeira palmada, Marlene lembra bem, era espancada na infância.
“Aquilo dói para a gente a vida inteira, quando a gente lembra a gente sozinha, chega a chorar”, conta.
As surras podem ter consequências que vão muito além das marcas físicas.
“Ainda na infância a criança pode desenvolver obesidade. Tem outros problemas, por exemplo, dermatite é outro problema que pode surgir. Anorexia também pode estar relacionada à violência sofrida por uma criança, por um adolescente”, esclarece Sandra.
A criança que apanha costuma enfrentar ainda outros problemas:
- baixa autoestima
- dificuldade de aprendizagem na escola
- falta de concentração
- dificuldade para dizer "não" na fase adulta
Claro que as crianças precisam de limites e muitos pais dizem que só "a conversa" não resolve. Mas para não chegar ao ponto de bater, melhor mesmo é estabelecer regras desce cedo, explique para o seu filho:
Por exemplo:
-Usou mal e quebrou um brinquedo? Ele precisa saber de antemão que ela vai ficar sem - e os pais não devem comprar outro igual.
-Tirou nota baixa na escola? Qual o combinado? Pode ser a perda do vídeo game por alguns dias ou algo parecido.
Mas o chamado castigo precisa ter relação com aquilo que a criança fez. Jogar vídeo game por muito tempo pode atrapalhar os estudos.
Então uma coisa tem a ver com a outra. Já cortar o sorvete do fim de semana porque a criança vai mal na escola, por exemplo, não tem o menor sentido, não há relação.
Ensinar os filhos a viver em sociedade, respeitando leis e regras é um grande desafio para os pais, mas é possível fazer isso sem agressão.
Pessoas que crescem apanhando se tornam pais que consideram que esta é a melhor forma de educação. Psicólogos, pais e as próprias crianças falam sobre o assunto.
Kiria Meurer- Florianópolis
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O Jornal Hoje aborda um assunto que provoca muita discussão entre os pais. Palmada educa? Que castigo dar para criança desobediente? Veja o que pais e psicólogos acham sobre dar palmadas em crianças.
Os motivos não mudam muito. “Ele estava mal criado na escola, não estava obedecendo a professora, não estava fazendo as atividades”, fala uma mãe.
Criança costuma ser levada mesmo, educar não é fácil e muitas vezes a gente perde a paciência, mas é importante saber que a agressão deixa marcas:
Pessoas que crescem apanhando podem se tornar pais que pensam que este é o único jeito de criar um filho. A tendência é repetir a fórmula e muita gente encontra, de verdade, justificativas para isso, acredita até que bater pode ser um gesto de amor.
“Na verdade a palmada não é educativa, ela só é punitiva. Ela não ensina a criança o que ela pode ou não fazer, o que é permitido ou não”, fala Sandra Coimbra, psicóloga.
Criança que apanha costuma ter medo, desenvolve sentimentos que não ensinam nem educam
O exemplo é a melhor forma de ensinar.
“Se em casa está uma dificuldade e o problema é resolvido com violência com a palmada, ela vai repetir isso na escola, cola. Frequentemente ela agride os colegas porque é assim que ela aprende que os problemas são resolvidos”, diz Marlene Oadália, dona de casa.
Dona Marlene conhece o risco de dar "só uma palmadinha". “Se a gente pega para dar uma palmada se torna violência porque daí eles começam a gritar, começam a fazer birra e dai quando a gente vê a coisa ficou fora de controle”, fala.
Todo espancamento começa com a primeira palmada, Marlene lembra bem, era espancada na infância.
“Aquilo dói para a gente a vida inteira, quando a gente lembra a gente sozinha, chega a chorar”, conta.
As surras podem ter consequências que vão muito além das marcas físicas.
“Ainda na infância a criança pode desenvolver obesidade. Tem outros problemas, por exemplo, dermatite é outro problema que pode surgir. Anorexia também pode estar relacionada à violência sofrida por uma criança, por um adolescente”, esclarece Sandra.
A criança que apanha costuma enfrentar ainda outros problemas:
- baixa autoestima
- dificuldade de aprendizagem na escola
- falta de concentração
- dificuldade para dizer "não" na fase adulta
Claro que as crianças precisam de limites e muitos pais dizem que só "a conversa" não resolve. Mas para não chegar ao ponto de bater, melhor mesmo é estabelecer regras desce cedo, explique para o seu filho:
Por exemplo:
-Usou mal e quebrou um brinquedo? Ele precisa saber de antemão que ela vai ficar sem - e os pais não devem comprar outro igual.
-Tirou nota baixa na escola? Qual o combinado? Pode ser a perda do vídeo game por alguns dias ou algo parecido.
Mas o chamado castigo precisa ter relação com aquilo que a criança fez. Jogar vídeo game por muito tempo pode atrapalhar os estudos.
Então uma coisa tem a ver com a outra. Já cortar o sorvete do fim de semana porque a criança vai mal na escola, por exemplo, não tem o menor sentido, não há relação.
Ensinar os filhos a viver em sociedade, respeitando leis e regras é um grande desafio para os pais, mas é possível fazer isso sem agressão.
Filhos do coração-1 reportagem
Filhos do Coração: a magia da adoção
O JH preparou uma série de reportagem para discutir as mudanças na legislação. Esperança e expectativa das crianças que estão em abrigos e também dos pais que esperam há muito tempo por um filho.
Rogério Lima
Gabriela de Palhano
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Ao longo dessa semana você vai conhecer histórias emocionantes... Encontros entre pais e filhos...
Na primeira reportagem da nova série ''Filhos do Coração'' os repórteres Gabriela de Palhano e Rogério Lima voltaram aos abrigos que eles visitaram em fevereiro de 2008. Veja o que aconteceu com meninos e meninas que viviam longe dos pais e esperavam por uma nova família.
Quase dois anos se passaram desde a última vez que estivemos em um abrigo em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro. Até agora nada foi feito para realizar o sonho de um menino: ter uma família.
O Jornal Hoje contou a história dele e de mais seis crianças de outros abrigos brasileiros e revelou os casos sem mostrar os rostos e nem os nomes verdadeiros.
O tempo passou e apenas uma foi adotada. As outras... Não tiveram nem a chance de ganhar uma nova família. Os processos estão parados, não há autorização da justiça para a adoção.
É o caso de outra menina. Quando estivemos em Fortaleza, ela estava começando a falar. Veja qual era a situação dela na época.
Maria chegou ao abrigo com quatro meses. Durante dois anos e meio a justiça trabalhou para que ela voltasse para a mãe. Dois meses em casa e a menina retornou a instituição machucada, pois sofreu maus tratos.
Hoje ela já vai completar quatro anos. Agora, o irmão mais novo também está no abrigo e a mãe biológica foi proibida pela justiça de visitar os filhos por causa das sucessivas agressões. Não houve mais nenhum avanço.
Um problema que ainda se repete no país inteiro.
O Rio de Janeiro é uma das poucas capitais com dados atualizados sobre as crianças de abrigos: são 3.358.
Dessas crianças, 31% estão nas instituições há mais de seis meses e não têm sequer um processo aberto para decidir se elas podem voltar para as famílias de origem ou se devem ser adotadas.
A maioria das crianças tem poucas chances de retornar para casa. Elas foram abandonadas, sofreram abusos ou são filhas de dependentes químicos. Metade não recebe visita e mesmo assim - legalmente - continua ligada aos pais e o pior: o processo para acabar com esse vínculo nem foi iniciado.
"O que ela não pode é ficar esperando até 18 anos essa mãe ou esse pai tomarem jeito. É um preço muito alto que é a criança que vai pagar porque está cômodo para todo mundo, está cômodo pro Conselho Tutelar que encaminha para o abrigo, está cômodo pro juiz que deixa a criança abrigada, está cômodo pro promotor que não está fazendo talvez nada neste caso específico para que a criança volte para aquela família, está cômodo pra essa família que não tem que fazer nada, tem que visitar essa criança no dia de Natal ou aniversário, mas para a criança está péssimo", esclarece Rosa Carneiro, promotora de justiça do Rio de Janeiro.
Os juízes culpam a falta de estrutura. “Os juízes que trabalham com essa área tem sempre a mesma reclamação quanto a falta de estrutura, dificuldade pra captar uma equipe técnica, um grupo responsável pela fiscalização dos abrigos pela permanente e necessária participação no dia-a-dia dessas crianças” explica Andréa Pachá, vice-presidente da Associação dos Magistrados do Brasil.
Quando os anos passam e as crianças continuam nos abrigos elas perdem um direito básico garantido por lei há 19 anos: o de crescer numa família. Em Porto Alegre o judiciário age com rapidez para evitar que elas fiquem sem o amor de um pai ou de uma mãe. Hoje todas têm a situação acompanhada pela justiça - o que diminuiu muito o tempo de permanência das crianças nessas instituições.
"A gente tem que dar um tempo razoável, dois, três meses e verificar a situação dessa criança, se essa família não tem condições ou não mostra nenhum esforço de se reorganizar. O caminho que a gente tem que procurar é outro: o de uma família substituta. O abrigo, por melhor que seja, não é a família", fala José Antônio Daltoé, juiz de Porto Alegre.
Família! Era esse o sonho de Márcio e Andria e a maior necessidade de Bernardo. “Eu aprendi com esse processo. Na realidade eles não estão encontrando um filho para nós, eles estão encontrando um lar para o Bernardo. Pais... Uma família que se adapte ao Bernardo”, fala o pai, Márcio Brum.
O pai tenta explicar o sentimento ao adotar uma criança. “A gente vê realmente o sentido de família depois que tem o filho depois que vê o carinho, vê as coisas, as prioridades que mudam por causa dele, de não ter mais noite de sono de não ter nada direito. Então se a gente já valoriza o nosso pai e a nossa mãe antes, depois que tem o filho tu ultrapassa isso, tu vê que família é uma coisa insuperável”.
Temos esse sentimento de família só depois que ele chegou, não esperava que fosse assim que fosse criar esse elo tão rápido e tão forte assim, como é”, finaliza Márcio.
O JH preparou uma série de reportagem para discutir as mudanças na legislação. Esperança e expectativa das crianças que estão em abrigos e também dos pais que esperam há muito tempo por um filho.
Rogério Lima
Gabriela de Palhano
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Ao longo dessa semana você vai conhecer histórias emocionantes... Encontros entre pais e filhos...
Na primeira reportagem da nova série ''Filhos do Coração'' os repórteres Gabriela de Palhano e Rogério Lima voltaram aos abrigos que eles visitaram em fevereiro de 2008. Veja o que aconteceu com meninos e meninas que viviam longe dos pais e esperavam por uma nova família.
Quase dois anos se passaram desde a última vez que estivemos em um abrigo em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro. Até agora nada foi feito para realizar o sonho de um menino: ter uma família.
O Jornal Hoje contou a história dele e de mais seis crianças de outros abrigos brasileiros e revelou os casos sem mostrar os rostos e nem os nomes verdadeiros.
O tempo passou e apenas uma foi adotada. As outras... Não tiveram nem a chance de ganhar uma nova família. Os processos estão parados, não há autorização da justiça para a adoção.
É o caso de outra menina. Quando estivemos em Fortaleza, ela estava começando a falar. Veja qual era a situação dela na época.
Maria chegou ao abrigo com quatro meses. Durante dois anos e meio a justiça trabalhou para que ela voltasse para a mãe. Dois meses em casa e a menina retornou a instituição machucada, pois sofreu maus tratos.
Hoje ela já vai completar quatro anos. Agora, o irmão mais novo também está no abrigo e a mãe biológica foi proibida pela justiça de visitar os filhos por causa das sucessivas agressões. Não houve mais nenhum avanço.
Um problema que ainda se repete no país inteiro.
O Rio de Janeiro é uma das poucas capitais com dados atualizados sobre as crianças de abrigos: são 3.358.
Dessas crianças, 31% estão nas instituições há mais de seis meses e não têm sequer um processo aberto para decidir se elas podem voltar para as famílias de origem ou se devem ser adotadas.
A maioria das crianças tem poucas chances de retornar para casa. Elas foram abandonadas, sofreram abusos ou são filhas de dependentes químicos. Metade não recebe visita e mesmo assim - legalmente - continua ligada aos pais e o pior: o processo para acabar com esse vínculo nem foi iniciado.
"O que ela não pode é ficar esperando até 18 anos essa mãe ou esse pai tomarem jeito. É um preço muito alto que é a criança que vai pagar porque está cômodo para todo mundo, está cômodo pro Conselho Tutelar que encaminha para o abrigo, está cômodo pro juiz que deixa a criança abrigada, está cômodo pro promotor que não está fazendo talvez nada neste caso específico para que a criança volte para aquela família, está cômodo pra essa família que não tem que fazer nada, tem que visitar essa criança no dia de Natal ou aniversário, mas para a criança está péssimo", esclarece Rosa Carneiro, promotora de justiça do Rio de Janeiro.
Os juízes culpam a falta de estrutura. “Os juízes que trabalham com essa área tem sempre a mesma reclamação quanto a falta de estrutura, dificuldade pra captar uma equipe técnica, um grupo responsável pela fiscalização dos abrigos pela permanente e necessária participação no dia-a-dia dessas crianças” explica Andréa Pachá, vice-presidente da Associação dos Magistrados do Brasil.
Quando os anos passam e as crianças continuam nos abrigos elas perdem um direito básico garantido por lei há 19 anos: o de crescer numa família. Em Porto Alegre o judiciário age com rapidez para evitar que elas fiquem sem o amor de um pai ou de uma mãe. Hoje todas têm a situação acompanhada pela justiça - o que diminuiu muito o tempo de permanência das crianças nessas instituições.
"A gente tem que dar um tempo razoável, dois, três meses e verificar a situação dessa criança, se essa família não tem condições ou não mostra nenhum esforço de se reorganizar. O caminho que a gente tem que procurar é outro: o de uma família substituta. O abrigo, por melhor que seja, não é a família", fala José Antônio Daltoé, juiz de Porto Alegre.
Família! Era esse o sonho de Márcio e Andria e a maior necessidade de Bernardo. “Eu aprendi com esse processo. Na realidade eles não estão encontrando um filho para nós, eles estão encontrando um lar para o Bernardo. Pais... Uma família que se adapte ao Bernardo”, fala o pai, Márcio Brum.
O pai tenta explicar o sentimento ao adotar uma criança. “A gente vê realmente o sentido de família depois que tem o filho depois que vê o carinho, vê as coisas, as prioridades que mudam por causa dele, de não ter mais noite de sono de não ter nada direito. Então se a gente já valoriza o nosso pai e a nossa mãe antes, depois que tem o filho tu ultrapassa isso, tu vê que família é uma coisa insuperável”.
Temos esse sentimento de família só depois que ele chegou, não esperava que fosse assim que fosse criar esse elo tão rápido e tão forte assim, como é”, finaliza Márcio.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
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