segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Filhos do coração-1 reportagem

Filhos do Coração: a magia da adoção
O JH preparou uma série de reportagem para discutir as mudanças na legislação. Esperança e expectativa das crianças que estão em abrigos e também dos pais que esperam há muito tempo por um filho.

Rogério Lima
Gabriela de Palhano
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Ao longo dessa semana você vai conhecer histórias emocionantes... Encontros entre pais e filhos...

Na primeira reportagem da nova série ''Filhos do Coração'' os repórteres Gabriela de Palhano e Rogério Lima voltaram aos abrigos que eles visitaram em fevereiro de 2008. Veja o que aconteceu com meninos e meninas que viviam longe dos pais e esperavam por uma nova família.

Quase dois anos se passaram desde a última vez que estivemos em um abrigo em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro. Até agora nada foi feito para realizar o sonho de um menino: ter uma família.

O Jornal Hoje contou a história dele e de mais seis crianças de outros abrigos brasileiros e revelou os casos sem mostrar os rostos e nem os nomes verdadeiros.

O tempo passou e apenas uma foi adotada. As outras... Não tiveram nem a chance de ganhar uma nova família. Os processos estão parados, não há autorização da justiça para a adoção.

É o caso de outra menina. Quando estivemos em Fortaleza, ela estava começando a falar. Veja qual era a situação dela na época.

Maria chegou ao abrigo com quatro meses. Durante dois anos e meio a justiça trabalhou para que ela voltasse para a mãe. Dois meses em casa e a menina retornou a instituição machucada, pois sofreu maus tratos.

Hoje ela já vai completar quatro anos. Agora, o irmão mais novo também está no abrigo e a mãe biológica foi proibida pela justiça de visitar os filhos por causa das sucessivas agressões. Não houve mais nenhum avanço.

Um problema que ainda se repete no país inteiro.

O Rio de Janeiro é uma das poucas capitais com dados atualizados sobre as crianças de abrigos: são 3.358.

Dessas crianças, 31% estão nas instituições há mais de seis meses e não têm sequer um processo aberto para decidir se elas podem voltar para as famílias de origem ou se devem ser adotadas.

A maioria das crianças tem poucas chances de retornar para casa. Elas foram abandonadas, sofreram abusos ou são filhas de dependentes químicos. Metade não recebe visita e mesmo assim - legalmente - continua ligada aos pais e o pior: o processo para acabar com esse vínculo nem foi iniciado.

"O que ela não pode é ficar esperando até 18 anos essa mãe ou esse pai tomarem jeito. É um preço muito alto que é a criança que vai pagar porque está cômodo para todo mundo, está cômodo pro Conselho Tutelar que encaminha para o abrigo, está cômodo pro juiz que deixa a criança abrigada, está cômodo pro promotor que não está fazendo talvez nada neste caso específico para que a criança volte para aquela família, está cômodo pra essa família que não tem que fazer nada, tem que visitar essa criança no dia de Natal ou aniversário, mas para a criança está péssimo", esclarece Rosa Carneiro, promotora de justiça do Rio de Janeiro.

Os juízes culpam a falta de estrutura. “Os juízes que trabalham com essa área tem sempre a mesma reclamação quanto a falta de estrutura, dificuldade pra captar uma equipe técnica, um grupo responsável pela fiscalização dos abrigos pela permanente e necessária participação no dia-a-dia dessas crianças” explica Andréa Pachá, vice-presidente da Associação dos Magistrados do Brasil.

Quando os anos passam e as crianças continuam nos abrigos elas perdem um direito básico garantido por lei há 19 anos: o de crescer numa família. Em Porto Alegre o judiciário age com rapidez para evitar que elas fiquem sem o amor de um pai ou de uma mãe. Hoje todas têm a situação acompanhada pela justiça - o que diminuiu muito o tempo de permanência das crianças nessas instituições.

"A gente tem que dar um tempo razoável, dois, três meses e verificar a situação dessa criança, se essa família não tem condições ou não mostra nenhum esforço de se reorganizar. O caminho que a gente tem que procurar é outro: o de uma família substituta. O abrigo, por melhor que seja, não é a família", fala José Antônio Daltoé, juiz de Porto Alegre.

Família! Era esse o sonho de Márcio e Andria e a maior necessidade de Bernardo. “Eu aprendi com esse processo. Na realidade eles não estão encontrando um filho para nós, eles estão encontrando um lar para o Bernardo. Pais... Uma família que se adapte ao Bernardo”, fala o pai, Márcio Brum.

O pai tenta explicar o sentimento ao adotar uma criança. “A gente vê realmente o sentido de família depois que tem o filho depois que vê o carinho, vê as coisas, as prioridades que mudam por causa dele, de não ter mais noite de sono de não ter nada direito. Então se a gente já valoriza o nosso pai e a nossa mãe antes, depois que tem o filho tu ultrapassa isso, tu vê que família é uma coisa insuperável”.

Temos esse sentimento de família só depois que ele chegou, não esperava que fosse assim que fosse criar esse elo tão rápido e tão forte assim, como é”, finaliza Márcio.

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